A adolescência e a crise de identidade


A ADOLESCÊNCIA E A CRISE DE IDENTIDADE

Leonardo Maia


Na adolescência, várias facetas não tão belas e boas do mundo e da vida se manifestam como percepção na consciência do jovem. Ele percebe várias facetas obscuras da sociedade e do ser humano, criando muitas vezes uma negação. Não quero me adequar a isso. Não é isso que eu busco. Eu não aceito isso.


Dentre as crises que marcam a adolescência, as de identidade e autonomia costumam ser as mais importantes. Por um lado, o adolescente sente necessidade de definir-se como pessoa, sem ser um mero seguidor dos modelos adultos à sua volta; por outro, quer agir por si mesmo. É-lhe mais importante sentir-se como autor dos próprios atos, que agir racionalmente. Essa é a razão de muitas atitudes de oposição aos mais velhos e mesmo de rebeldias. Embora essas crises possam tornar o adolescente uma pessoa difícil de lidar, e até mesmo um ser antissocial, elas preparam-no para a vida adulta e em geral eles emergem delas mais amadurecidos e ponderados.

Adotam estilos de vida cada vez mais integrados ao grupo com que convivem que à família e se preocupam muito mais com a opinião dos amigos, do que com a de seus pais. Nessa fase também eles querem e lutam por sua independência, provando para si mesmos e para os outros que são mais capazes e mais adequados que os adultos que os cercam. Procuram sua autonomia e perdem o interesse nas atividades familiares.

Acontece que o adolescente começa a se perceber separado da família, começa a perceber que suas ideias e seu caminho são próprios. Nesse processo pode ver as falhas e dificuldades de seus pais como justificativas para a negação de diretrizes – quem é você pra me dizer o que fazer? Não quero ser igual aos meus pais.

Na verdade, os pais deveriam apenas ajudar nesse difícil processo de encontrar o próprio caminho, mas muitas vezes a inconsciência do processo do adolescente e o medo da perdição (se perder no labirinto de processos pelos quais está passando) os fazem impor as diretrizes e querer conduzir as rédeas do jovem, podendo criar um ainda maior distanciamento e rebeldia, fazendo com que aumente sua crise de identidade e surja uma busca por aceitação e reconhecimento em grupos, consciente ou inconsciente.

Os pais, por outro lado, também se tornam cada vez mais inconscientes do processo do adolescente, por esse distanciamento. Eles geralmente mantém uma certa rigidez em relação à percepção do mundo baseada no seu processo particular, não se esforçando muito para adentrar o universo do jovem (ou mesmo, sem tempo para isso). Este recebe fortes influências externas, do processo coletivo, cultural e social, pois ele quer se posicionar perante ao mundo, e para isso, precisa adentra-lo. A grande questão é que essas influências sofrem muitas mudanças de geração para geração. Se não acompanharmos com interesse genuíno o que eles estão vivenciando individual e coletivamente, nos tornaremos antiquados e isso se tornará evidente para eles, aumentando a ainda mais o distanciamento de ideias e percepção do mundo, contribuindo para a negação e isolamento no contexto familiar.

É importante analisar a questão da visão Antroposófica nessa fase do desenvolvimento, onde:

No primeiro setênio (0-7 anos), a essência é o Mundo é Bom.

No segundo setênio (7-14 anos), o Mundo é Belo.

Agora, já nesse terceiro setênio (14 aos 21 anos), o mundo é verdadeiro, ou seja, várias facetas não tão belas e boas do mundo e da vida se manifestam como percepção na consciência do jovem. Percebe várias facetas obscuras da sociedade e do ser humano, criando muitas vezes uma negação. Não quero me adequar a isso. Não é isso que eu busco. Eu não aceito isso.

Por exemplo: Uma sociedade que envenena os alimentos, destrói a natureza, governa por interesses e poder, manipula as informações, explora o trabalho das pessoas, favorece grupos elitizados, não se preocupa com o sofrimento humano, uma justiça que é parcial e autoritária entre outros aspectos. Também no âmbito familiar, como maus hábitos e defeitos dos pais, dificuldades no relacionamento entre eles, atitudes imorais, posicionamentos ideológicos de moralidade questináveis e etc…

Além disso, pode se perceber como se estivesse sendo induzido/forçado a trilhar esse caminho, através da educação tanto de casa como escolar – o que, na maioria dos casos, é a mais pura verdade – uma espécie de doutrinação e adestramento para “facilitar” seu caminho de inserção social.

Os pais têm um modelo pronto e ideal.
E em relação aos pais é muito forte o desejo de um ideal, e em muitos casos existe uma projeção de sonhos, e não libertam os filhos para seguir seu próprio caminho de individuação

Esse sentimento de não poder fazer suas próprias escolhas, ou de não poder decidir por outra coisa que não a que nos é oferecida ou a que todo mundo faz pode, muitas vezes, gerar uma revolta e uma tendência à alienação. O jovem, que ainda não tem a consciência clara do caminho que quer seguir (aspecto que é fortalecido pelo distanciamento de seu mundo interno durante o processo educacional – como exemplificado no vídeo: Ambiente favorável ao desenvolvimento infantil), pode mergulhar num drama psicológico e pode buscar a satisfação e realização momentâneas em percepções sensoriais superficiais – prazer!!! (sexo, balada e entorpecentes, comida, tudo que possa aliviar o alto estresse deste processo). Isso pode acontecer independente de uma aceitação ou não deste caminho pré determinado externamente por seus pais e sociedade.

Meus pais não me entendem e querem me controlar, a sociedade quer me corromper… vou buscar refúgio com os amigos (vai se alienar de tudo isso, mesmo que inconscientemente).

É interessante notar que eles são marginalizados, mas por um aspecto de consciência. Tanto pelos pais, quanto pela sociedade. O que se espera deles, para que sejam reconhecidos e valorizados é que se adequem e conquistem seu espaço dentro desse modelo que eles estão negando, mas para isso eles devem se tornar inconscientes desses aspectos negativos, ou pior, entrar no jogo conscientemente como agente de todas essas sombras… quando, de fato, deveriam se tornar agentes de transformação social.

O que pode se tornar uma tarefa super complicada para um jovem…

Leonardo Maia


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