A necessidade de autoafirmação como fuga do diálogo


A NECESSIDADE DE AUTOAFIRMAÇÃO COMO FUGA DO DIÁLOGO

Leonardo Maia


“Quais são os valores comuns que nos desperta o interesse pela Antroposofia?  Como eu, como antropósofo, posso dar as mãos e meu apoio ao que caminha na direção oposta ao que indicou Rudolf Steiner através da Antroposofia?”


Um fenômeno muito interessante está ocorrendo: a impossibilidade do diálogo argumentado. Como fruto da extrema polarização, na qual nos encontramos hoje, e uma incrível necessidade de autoafirmação egóica por parte dos indivíduos, surge um inútil mecanismo de debate e discussões baseado quase que exclusivamente em afirmações unilaterais, com falta de reflexão e argumentação, duelo de acusações, desonestidade intelectual e agressividade – sarcasmo, ironia, xingamentos, desrespeito e violência.

Incrivelmente este “modelo” de debate é um processo de extrema infantilização, por vezes muito similar a briga de crianças imaturas de pouquíssima idade:

Uma grita: “É MEU!!!” e a outra responde: “NÃÃOO!!! É MEEUU”… e continuam: “É MEEEUUU!!!” x “NÃÃÃÃOOOO!!! É MEEEEUUUU”… e aí sucessivamente aumentando o tom de voz: “É MEEEEEUUUUU!!!” x “NÃÃÃÃÃÃOOOOOO!!! É MEEEEEEUUUUUU”… até onde suportarem gritar e então um dos amiguinhos vai lá e morde o outro para resolver.

Por outras similar a briga de irmãos se dedurando e se acusando:

“Mãe, o João comeu o bolo que tava na geladeira escondido.”
“E você Maria… que ontem a Maria beijou o filho do padeiro?”… num processo de delação, “não premiada” neste caso, culminando numa bela troca de ofensas para finalizar a produtiva “conversa”, tentando mostrar que um aspecto justifica ou anula o outro.

Percebe-se que estes exemplos são bem comuns hoje no âmbito das redes sociais, principalmente se passearmos pelos comentários de notícias – especialmente as políticas.

Existe também o terceiro modelo, de pessoas que argumentam mas que têm de lidar com a contra-argumentação infantilizada baseada nas dois exemplos acima.

Acontece que estes 3 modelos de debate tomou conta de todas as esferas, desde o âmbito pessoal chegando até a esfera governamental. Aparentemente, as correntes polarizadas se tornaram incapazes de dialogar.

Poderiam ambas as correntes encontrar uma busca, um propósito comum a ambas as partes que pudesse convergir numa harmonia apesar de ideologias diferenciadas?

Existem alguns pontos importantes a serem considerados:

Para se dialogar, um ponto comum deve existir de ambos os lados: respeito, capacidade de ouvir e refletir, honestidade intelectual e humildade para se buscar algo benéfico à todos. Aqueles que verdadeiramente buscam este ponto de transcendência devem estar acima da necessidade individual de autoafirmação egóica e da necessidade de beneficiar-se em cima de aspectos que prejudiquem os demais, ou seja, o bem comum deve estar acima do interesse pessoal. Outro aspecto relevante é a questão de valores. Que valores são defendidos pela sua linha ideológica? Liberdade individual, igualdade de direitos, justiça ética, respeito ao próximo, fraternidade social (me importa o sofrimento alheio?): estes valores ressoam verdadeiramente em nossos corações? Ou é um discurso intelectualizado, vazio de sentido anímico, fundamentado em algum conceito estático e sem reflexo na minha vida prática? Pois se os valores não convergirem, não há direção comum possível, por exemplo: se uma ideologia exclui ou marginaliza grupos específicos, não existe diálogo nem harmonia possível, como no Nazismo, onde acreditava-se numa supremacia ariana subjugando as outras raças e ideologias tb.

Considerando que mesmo em grupos de pessoas com valores congruentes existe essa mesma polarização, eu pergunto, como transcendê-la? De onde poderia surgir o diálogo saudável em busca da harmonização social, uma busca conjunta por melhores condições tanto no contexto social quanto no individual, ou seja, em direção a uma sociedade mais justa e igualitária, porém preservando a liberdade, independência e autonomia do indivíduo?

Honestamente, na minha concepção individual, quem poderia corroborar com este processo de harmonização e diálogo seriam os verdadeiros pensadores contemporâneos de todas as correntes. Mas onde eles estão?

Bom, por incrível que pareça, existe hoje uma marginalização do pensar: filosofia, ciências humanas e sociais estão sendo marginalizados hoje com a justificativa de doutrinação, mas tal justificativa é fundamentada apenas com base na questão da autoafirmação, pois ao serem levantados aspectos que confrontam uma ideologia ou outra, existe uma tendência muito forte das pessoas caírem no contexto da discussões infantilizadas exemplificadas no início do texto, num consistente processo de negação ou mesmo alienação em relação aos aspectos considerados, quaisquer que sejam eles e até mesmo pejoração e agressão verbal e até física aos interlocutores.

Agora, entrando na esfera da Antroposofia que, teoricamente, nos exige como seres humanos que nos erguamos até o âmbito do pensar e tenhamos uma abordagem extremamente pontual e conceitual dos aspectos a serem considerados com base no que se exige da nossa época atual, chamado por Steiner de Era da Consciência, sempre com direção aos propósitos e valores mais elevados do ser humano e atuação no mundo, ou seja: o homem atuando integralmente no mundo com o pensar, o sentir e o querer (cabeça, coração e membros).

Estranhamente, eu tenho trazido questões sobre estes aspectos aqui mesmo na Biblioteca, e não consigo respostas ou mesmo diálogo. Sei que não tenho amplo domínio da Ciência Espiritual Antroposófica, porém tenho estudado dentro das minhas possibilidades e, principalmente, buscado compreender inúmeras questões que me surgem e sei que tais questões e dúvidas permeiam a mente de muitas pessoas.

Simplesmente ao questionar certos aspectos, ponto essencial de quem busca respostas e a verdade, sempre buscando argumentar e conceituar até onde minha consciência alcança, me deparo com ataques pessoais, xingamentos e julgamentos: ou sem argumentação nenhuma, simplesmente o ataque em si a minha pessoa e à página da Biblioteca ou sob a alegação de “eu tenho 30 anos de Antroposofia” ou “eu sou Doutor em Medicina Antroposófica”, como se os títulos ou tempo de estudo fossem argumentação ou validassem quaisquer afirmações sem argumentação e conceituação pontual.

Também me deparo com afirmações de que minhas colocações estão erradas sem nenhuma contra-argumentação ou conceituação que justifique ou simplesmente a fuga das questões específicas. Também numa extremidade me deparo com o silêncio absoluto diante das questões que levanto, ignorando completamente a busca por compreensão de tal contexto (inclusive por parte das Instituições). Isto advindo de núcleos e estudantes de décadas da Antroposofia – a Ciência Espiritual.

Bom, se a busca por compreensão relacionada à realidade com base na Ciência Espiritual por minha parte, por estudantes e interessados é desmerecida e ignorada pelos próprios Antropósofos, existe algo errado. Ou ela está sendo analisada de uma perspectiva conceitual estática desvinculada do âmbito da vida real (Ahriman – a Antroposofia morta) ou está dissolvida em sua própria essência (Lúcifer).

De fato, o que acredito pessoalmente, é no aspecto que dá título a esta postagem, a autoafirmação. A Antroposofia só se torna válida quando ela me reafirma. No momento em que seus conceitos vão no caminho oposto ao que escolhi, ou eu a desvirtuo, adaptando suas complexas linhas conceituais às minhas escolhas e decisões ou desvinculando-a da realidade, ou seja, anulando sua relação com a vida em si. No extremo, a ignoro e entro na pura negação: não vou enxergar tal fato ou tal questionamento não é digno de reflexão. Apenas o que me convir…
Acontece que isso não é Antroposofia, pois ela busca a verdade e está conectada à realidade… nada pode ser ignorado ou desconsiderado, senão ela mesma não pode se vincular ao Espírito Vivo.

Acontece que muitos Antropósofos acreditam nisso, que a Antroposofia não abarca inúmeras coisas, por conceituação. Mas, na minha concepção pessoal, do que compreendo da Antroposofia, ela deve trazer essas conceituações a sua própria luz e ali elas tomam outra perspectiva, então são capazes de aprofundar e ampliar sempre mais a concepção da realidade viva. Tudo pode ser observado de uma perspectiva Antroposófica, como um fenômeno vivo (reflexo da própria Manifestação). Por isso a Antroposofia deve ser considerada um “Ser”, uma entidade viva e não um conceito estático morto. Este é o famoso “olhar ampliado pela Antroposofia”, como exemplo: Pedagogia Waldorf – pedagogia sob o olhar ampliado da Antroposofia, Agricultura Biodinâmica – agricultura sob o olhar ampliado da Antroposofia, Medicina Antroposófica – medicina sob o olhar ampliado da Antroposofia… e etc.

A partir dessa perspectiva e como indagação, gostaria de compreender pontualmente, e acredito que muitos que estão conhecendo a Antroposofia e Pedagogia Waldorf, como pessoas vinculadas à Antroposofia dão apoio a alguém defensor explícito e declarado de valores que vão contra os Impulsos Crísticos, direção ideológica que procura cercear toda a liberdade de pensamento e religiosa – inclusive no âmbio educacional, com política de desmanche das representações e instituições de defesa do direitos humanos, proteção ambiental e indígena, arte, cultura e etc… além, é claro, dos seus constantes discursos de ódio que inflamam a astralidade de seus apoiadores e gera um impacto nas forças do coração, todos estes aspectos que vão na direção contrária à elevação do pensar, sentir e agir em prol do caminho do Homem como ser Livre e Altruísta? Como se dá esta incoerência dos valores?

Como eu, como antropósofo, posso dar as mãos e meu apoio ao que caminha na direção oposta ao que indicou Rudolf Steiner através da Antroposofia? Um discurso desvinculado da ação real? Ou esse aspecto não merece um esclarecimento ou um olhar sob o prisma da Antroposofia, apenas os que me convém? Ou este tema é muito doloroso para ser discutido e abordado?

Este é o ponto incompreensível que não parece vir à Luz, pelo menos da minha compreensão e da de muitas outras pessoas. Esta é uma simples busca por entendimento de uma questão pontual que aparentemente não tem resposta. E, por nos alinharmos à perspectiva Antroposófica, de seres que se erguem e pensam, acredito que um diálogo com argumentações seria possível.

É uma pergunta direta de alguém que busca compreender este fato à Luz da Antroposofia, portanto é dispensável comentários que se enquadrem nos perfis citados no texto: xingamentos, autoafirmações unilaterais sem argumentação e conceituação ou comentários que desvirtuem o ponto questionado, ou seja, sem descer ao nível de ataques por estar questionando e buscando a compreensão desse aspecto específico e pontual (como tem acontecido frequentemente a cada questionamento que tenho feito).

Essa é uma questão extremamente relevante e muito discutida hoje nos ambientes Antroposóficos e nas Escolas Waldorf, portanto, acredito que o impulso em busca da compreensão é válido e harmonizador se existe verdadeiramente o interesse e uma moralidade e valores congruentes por trás dele. Quais são os valores comuns que nos desperta o interesse pela Antroposofia?

por Leonardo Maia


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5 opiniões sobre “A necessidade de autoafirmação como fuga do diálogo”

  1. Leonardo.
    Eu me conecto diretamente aos seus dizeres. Estudei alguns escritos de Steiner, por meio de teoria e pratica. E não percebi, em alguns meios antroposóficos que convivi a ciência espiritual viva. Desta maneira, acabei por me distanciar destes meios. Agora, te ouvindo, me ouço, sem deixar de entender que a cultura brasileira tem sérios problemas educacionais em todas as esferas relacionadas à classe.

  2. Lendo com atenção este seu artigo e quero registrar total apoio a tudo que você expressa e entende sobre a infantilização e polarização existente não só aí no Brasil mas em outras partes do mundo atual (vivo na Inglaterra há mais de 40 anos e com Antroposofia há 30). Observo a cada dia a tendência de egoísmo e egocentrismo (inclusive em mim) e o mundo atual está sendo realmente testado a seres que despertem à energia do Amor, da união, fraternidade principalmente diante as nossas diferenças em todos os níveis? Estou vivendo com câncer e cada dia desta jornada me confirma a necessidade de ser verdadeira, aberta a receber e manifestar a ‘cura’ que vem do viver esta energia cristica? Aprecio e agradeço suas contribuições!

  3. Me sinto identificada com estes questionamentos também. E com grande preocupação sobre como avançar em direção ao diálogo, não só entre antropósofos com posturas diferentes e abertamente contraditórias, mas de um modo geral, como aproximar as pessoas que estão dessa forma polarizadas. Me preocupa como cada vez mais o tecido social é mais profundamente rasgado e os valores essenciais como a solidariedade, a inclusão, a verdade, o sentido humanitário, o amor, o respeito, a igualdade, a paz, são deixados de lado, marginalizados e até enquadrados à força em referências ideológicas distorcidas…..
    O que poderemos fazer para dialogar, não apenas com quem reafirma minhas ideias e convicções?

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