A predisposição para a saúde ou doença


Antropologia da primeira infância – parte 5

A PREDISPOSIÇÃO PARA A SAÚDE OU DOENÇA

Ernest Michael Kranich

Tradução de Christa Glass e revisão de Ruth Salles



A criança leva para o resto da vida a configuração plástica: pela observação de sua mãe e das pessoas em seu entorno, moldou plasticamente em si mesma.


Fica esclarecido, contudo o que já foi abordado, que no processo de verticalização e no esforço para aprender a falar, atua o Eu da criança formativamente no corpo. A sensibilidade dos órgãos em relação aos processos anímicos é a chave que nos possibilita compreender muitos fatos do desenvolvimento na primeira infância e também, por exemplo, a predisposição para doenças psicossomáticas. Isto será exemplificado na neurose cardíaca.

Pessoas que sofrem de neurose cardíaca frequentemente têm palpitações fortes e sintomas sístoles extras. Ficam rapidamente cansadas e exaustas; sofrem de falta de ar ou de sensações de angústia em geral; são facilmente irritáveis e têm uma inquietação interior. Elas têm acima de tudo uma postura anímica básica de medo. As mães de pessoas que sofrem de neurose cardíaca, via de regra, eram pessoas inseguras. Quando uma criança percebe principalmente em seus primeiros anos de vida o olhar inseguro e preocupado da mãe, seu semblante amedrontado, seus movimentos inseguros, o estremecimento quando surge algo inesperado, vive então concomitantemente dentro de tudo o que provoca estas manifestações – ou seja, medo, a postura medrosa. Como na mãe, também na criança o coração começa a bater mais forte e irregularmente. O medo percebido e “convivido” age sobre a respiração e a batida cardíaca da criança pequena. No coração da criança pequena atuam, como nos outros órgãos, as forças formadoras que transformam sua configuração, assim como transformam sua postura e sua musculatura. Neste processo de vir-a-ser, o medo penetra e participa da formação do coração da criança. É inoculada no coração da criança a disposição para reações de medo. E, assim, a criança “leva para o resto da vida a configuração plástica”; pela observação de sua mãe insegura, “moldou plasticamente em si mesma”, Rudolf Steiner. É por isso que o coração bate mais depressa e irregularmente mesmo por motivos de pouca importância. Por causa deste seu coração, a pessoa mostra o aspecto básico de inquietação, de constrangimento e medo. Este está sempre presente porque vive em seus órgãos e, acima de tudo, em seu coração. Portanto, desde a primeira infância esta pessoa tem o organismo predisposto para o medo e a inquietação, por ter assimilado na organização moldável do seu corpo, quando ainda era criança pequena. O meio ambiente da criança, depois de adulta torna-se distinto de vida. Quando a criança vivencia imitativamente seu meio ambiente pela interligação da percepção (representação), do sentimento e da vontade, trata-se de uma ocorrência psicossomática, ou seja, o germe para a saúde ou a doença.

Este convívio íntimo com o meio ambiente leva a outros fatos importantes do desenvolvimento infantil. Pode se observar como as crianças pequenas param suas atividades assim que sua mãe se retira do aposento onde estão. A criança não percebe meramente a mãe, ela se vivifica no olhar, nas feições e nos movimentos da mãe.

Uma observação minuciosa do psicólogo americano H.M.Skeels, nos mostra quão profundamente o interior da criança pode ser vivificado por outras pessoas. Na década de trinta, Skeels tirou treze crianças de um grupo maior de crianças retardadas e as entregou aos cuidados de algumas senhoras e jovens mais velhas que também viviam num lar para excepcionais. As senhoras e as jovens desenvolveram uma grande simpatia pelas crianças pequenas. Elas brincavam com as crianças, falavam bastante com elas e faziam passeios. Com isso, a vida anímica das crianças foi tão estimulada, que o quociente de inteligência subiu 28 pontos em pouco tempo (de 64 foi para 92). Depois de trinta anos, Skeels voltou a examinar aquelas crianças que então já eram adultas. Aquelas que não tiveram cuidados especiais ainda viviam em instituições, se já não tivessem morrido. As outras, porém entrosaram-se na vida e ganhavam para seu próprio sustento. Quase todas tinham cursado o colegial e algumas até cursaram a universidade.

A criança pequena necessita de outras pessoas porque é só nelas que ela pode verificar o que carrega dentro de si mesma como predisposição. Quando tais pessoas faltam, então suas predisposições e dotes ocultos não podem despertar e frutificar na vida; ficam nas regiões da inconsciência. Exteriormente, a pessoa estará inserida na vida, mas não conseguirá se realizar como um ser anímico e espiritual. Pode aparecer, então, a situação trágica do hospitalismo.

Há portanto, dois fatores que estimulam o desenvolvimento do ser humano em sua primeira infância: primeiro o exemplo saudável, ou seja, pessoas com uma linguagem rica, ativas, com senso social e cientes das consequências de seus atos. Depois, dedicação humana, que vivifica a criança interiormente; que desperta e estimula as predisposições existentes nas profundezas. Mas também existem dois fatores que retém e prejudicam o desenvolvimento sadio da criança: primeiro, os exemplos doentios: adultos com nervosismo, inquietude medrosa, emoções desenfreadas, linguagem pobre etc. Depois, a falta de dedicação, de calor e interesses humanos. Estes fatos são de grande importância porque o destino da vida de uma pessoa é intensamente determinado por eles. A infância também está presente no adulto: nos fundamentos da vida, firmes ou oscilantes, de sua biografia.


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