A reestruturação, pelo Eu, do corpo herdado


Antropologia da primeira infância – parte 2

A REESTRUTURAÇÃO, PELO EU, DO CORPO HERDADO

Ernest Michael Kranich

Tradução de Christa Glass e revisão de Ruth Salles


“A criança recém-nascida tem um corpo estruturado por leis e forças da hereditariedade. Inicialmente seu corpo é uma organização basicamente impessoal, que é reestruturada pelo Eu. Nesta reestruturação o Eu permeia o corpo e nele se expressa.


A compreensão do desenvolvimento na primeira infância ocorre quando estudamos a forma como o Eu atua no corpo da criança. Inicialmente ele atua nos sistemas muscular e ósseo. Quando, através da aquisição vertical pela vontade, a criança toma pose da nuca, das costas, da bacia, das pernas e dos pés, vai se desenvolvendo a musculatura, que se diferencia entre as fibras musculares físicas, que se contraem rapidamente, e as tônicas que atuam com força. A vontade também atua na alteração do sistema ósseo. Em primeiro lugar, a criança se esforça para levantar a cabeça e voltá-la livremente para o meio ambiente. É neste processo que se forma a curvatura característica da coluna vertebral na altura da nuca, a chamada lordose cervical. A criança recém-nascida ainda não tem esta curvatura. Ela se forma por meio do esforço feito para sustentar a cabeça livremente, ou seja, na superação da força da gravidade. De início, a curvatura aparece temporariamente, para se tornar uma configuração permanente dentro de cinco anos.

Quando a criança se esforça para ficar de pé livremente, lá pelo fim do primeiro ano de vida, também há a transformação da parte inferior da coluna vertebral. Isto se dá quando, em relação à sua posição anterior, as pernas dão uma virada e se instalam debaixo do tronco, dando origem à curvatura no âmbito lombar, a chamada lordose lombar, que também se torna, dentro de cinco anos uma forma permanente.

A coluna lombar não tem sua forma humana por hereditariedade e nem pela maturação determinada geneticamente, mas sim, pela vontade “egóica” da criança, que atua no esforço feito para a aquisição da posição livre da cabeça e do ficar em pé e andar. A criança não toma simplesmente posse de seu corpo, ela o reestrutura até o sistema ósseo. Quando então, o ser humano se coloca na postura sentada ou de pé, as curvaturas da coluna se acentuam pelo peso da cabeça e do tronco. O ser humano está constantemente se contrapondo à força da gravidade, ele está procurando continuamente se manter na vertical. Pela reestruturação da coluna ele se revela como Eu dentro do corpo.

A reestruturação do corpo também atinge os quadris, as pernas e os pés. No recém-nascido, as pernas são visivelmente mais curtas e os joelhos virados para fora. Juntamente com a aquisição do ficar em pé e andar, a pernas crescem contra a força da gravidade e são reestruturadas. A nova configuração se realiza até o sétimo anos de vida. Nela se revela uma grande luta com o peso do corpo, uma atividade sustentadora. Portanto o corpo adquire também nas pernas uma forma que mostra, na superação da força da gravidade, a atuação do Eu. Impressionante é a reestruturação dos pés, onde o peso do corpo se faz mais intenso e onde, através do ato de andar, e principalmente quando a criança anda na ponta dos pés, surge a arcada do pé. Vemos aqui novamente até os sete anos, uma configuração que surgiu de uma vigorosa luta contra a força da gravidade. Ela é a base sobre a qual o homem pode se manter em equilíbrio e é a condição para um andar leve e flexível.

O desenvolvimento na primeira infância é um acontecimento que atua profundamente para dentro das regiões inconscientes do corpo. A criança recém-nascida tem um corpo estruturado por leis e forças da hereditariedade. Inicialmente seu corpo é uma organização basicamente impessoal, que é reestruturada pelo Eu. Nesta reestruturação o Eu permeia o corpo e nele se expressa. Quando observamos os novos traços fisionômicos que vão surgindo, percebemos que a criança adquire uma configuração marcada pelo Eu, que vai até o sistema ósseo. Na aquisição da postura ereta tem início um processo ao qual, geralmente, não é dado o devido valor. Trata-se da individuação do corpo humano.


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