A religiosidade da criança pequena


A RELIGIOSIDADE DA CRIANÇA PEQUENA

Flávia Rodrigues Waltrick Garcia

Fonte: Colibri – Boletim da Escola Waldorf Anabá


A “religiosidade corpórea” segundo Steiner, a entrega plena da criança pequena, é a certeza de que o mundo é bom, confiável e digno de ser imitado. A coerência do adulto entre o sentir, o seu pensar e a sua ação no mundo fortalecerá essa entrega e confiança na vida: essa religiosidade reverberará pelo resto de suas vidas.


A criança pequena, que acabou de vir do mundo espiritual, traz consigo, ainda de forma muito intensa, o que vivenciou nessa outra atmosfera. Ela vem com a certeza de que o mundo é bom, confiável e digno de ser imitado. E com isso, através da imitação, ela vai se desenvolvendo e aprendendo com tudo que está à sua volta. Essa confiança primordial inata que ela carrega permeia todo o seu corpo. É o que Rudolf Steiner denominou de “religiosidade corpórea”, a entrega plena da criança.

Isso nos leva a refletir sobre a qualidade do ambiente que oferecemos a ela. E não estamos falando somente de ambiente físico, ou o que os olhos vêem, o que se escuta ou o que podemos tocar, mas principalmente o que oferecemos animicamente. Como estamos nos sentindo internamente é o que de fato transmitiremos à criança. Essa vida interior é o que mais importará para ela. A coerência entre esse sentir do adulto, com o seu pensar e a sua ação no mundo trará confiança e fortalecerá este ser.

A religiosidade inata à criança precisa e deve ser cultivada pelos adultos que a guiam. Como cita Rudolf Steiner: “Quem, na juventude, não aprendeu a juntar as mãos em reverência, na idade avançada não conseguirá abri-las para o ato de abençoar”. A criança afortunada que puder ter à sua volta pessoas que preservem essa força – na época em que ainda está se formando o corpo físico – terá um campo fértil para que essa religiosidade possa florescer na vida adulta, porque isso fará parte de sua estrutura física e fluirá naturalmente.

Quando o adulto verdadeiramente sente-se grato por simples acontecimentos do dia a dia, surge no mais profundo ser da criança o impulso de imitar-lhe em seu agradecimento, e isso nutre seu ser. Este sentimento universal é o alicerce para a autêntica religiosidade do homem.

Gratidão é uma das palavras de ouro da primeira infância que serve para toda a vida. É o maior presente que podemos dar às crianças. Quando, em diferentes situações do dia a dia, conseguimos com nosso esforço e consciência nos apropriarmos dos sentimentos de gratidão, respeito e veneração, estamos ensinando à criança como lidar com o mundo de forma verdadeira e amorosa. A busca do adulto pela autoeducação, o esforço diário para superar as suas dificuldades, é o que alimenta a alma da criança com sentimentos nobres.

A oração antes de dormir, agradecer o alimento nas refeições, comemorar as festas cristãs só terão sentido se interiormente a intenção for verdadeira. Aproveitando a época de Natal, vamos focar no real sentido da festa, buscar a sua origem. Festejar a expectativa e a alegria pelo fato de nós, seres humanos, termos sido presenteados com a possibilidade do nascimento do “EU” e, com este, do desenvolvimento individual. Essas forças é que devem permear o ambiente. O que essa festa mobiliza na vida do adulto é o que irá irradiar para o ambiente da criança. Esta é a nossa tarefa, purificar e traduzir esse conteúdo interior, fazer visíveis os nossos pensamentos para então as crianças poderem captá-los.

Observar um fenômeno da natureza: o pôr do sol, uma fila de formigas carregando folhas maiores do que elas, o germinar de uma semente, em tudo isso está o divino, o sagrado. As crianças são mestres em fazer isso: venerar. Olhar com profundo interesse e
respeito por aqueles seres. A religiosidade é algo que devemos aprender com elas.

Presença. Outra palavra de ouro do primeiro setênio. Estar inteiramente presente a cada momento, reconhecer nele a grandeza de sua divindade e ser grato, muito grato. As experiências no convívio diário com as crianças tocam num sentimento religioso comum a todos os seres humanos, elas estão ali, nos mostrando isso a todo instante. Esse é um dos nossos desafios. Resgatar essas qualidades tão latentes nelas.

Cabe ao adulto, consciente e desperto, através do seu autodesenvolvimento, reaproximar-se dessa essência espiritual e religar-se, para que as crianças de hoje de fato sejam futuros adultos repletos de gratidão pela vida. Que tenhamos força e coragem para conduzirmos com amor as crianças nessa caminhada.


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