A sensibilidade dos órgãos infantis


Antropologia da primeira infância – parte 4

A SENSIBILIDADE DOS ORGÃOS INFANTIS

Ernest Michael Kranich

Tradução de Christa Glass e revisão de Ruth Salles



Só podemos compreender a vida anímica da criança quando nos fica claro que representar, sentir e querer não são relativamente autônomos como no adulto, mas que de imediato atuam conjuntamente. Aquilo que a criança vê é “co-vivenciado” imediatamente pelo sentimento e “co-realizado” por um movimento volitivo.


Tudo o que foi mencionado até agora nos suscita perguntas sobre a “moldabilidade” incomum do corpo da criança pequena. Nenhum outro ser da terra tem o corpo tão moldável e aberto para o que vem do âmbito da alma e do meio ambiente, como a criança pequena. Para compreendermos esta plasticidade temos de observar o corpo da criança com mais exatidão, assim como a configuração especial da vida anímica da criança.

Nos órgãos do corpo humano ocorre um fenômeno que frequentemente passa despercebido. Os órgãos não se apresentam com formas prontas; estão ininterruptamente em formação. Ocorre neles uma regeneração constante através da qual são elaboradas as formas. Isto se torna visível nos processos de cura, assim como também na renovação constante das substâncias. Em cada órgão atua um campo de forças vivas e formativas. Na criança pequena reinam relacionamentos mais dinâmicos do que nos adultos. Seus órgãos são mais moles. Neles não atuam apenas uma renovação de formas iguais as anteriores.

Na criança recém-nascida as formas dos órgãos são muito mais simples do que aparece na criança em idade escolar. Às vezes são até bem diferentes daquelas formas mais conhecidas por nós. Estes órgãos simples passarão por uma transformação. O campo das forças plasmadoras se transforma e cria formas mais perfeitas. A organização das forças formadoras passa por um desenvolvimento juntamente com todo o corpo da criança pequena. Mais tarde, a formação dos órgãos se estabiliza; em sua maior parte as forças formadoras adquirem uma configuração estável. Na criança pequena, porém, a formação orgânica está em processo, não está definida, e com isto está aberta para novos impulsos de formação. É este o motivo pelo qual os órgãos do corpo infantil, em seus primeiros anos de vida, são tão moldáveis e abertos para influências transformadoras vindas do âmbito anímico e do Eu.

A vida anímica da criança pequena também tem um transcurso bem diferente do da criança em idade escolar ou do adulto. Quando o adulto olha para um objeto, a impressão recebida pelos olhos desencadeia uma atividade anímica. Surge uma representação através da qual ele conhece o objeto. Talvez se faça presente no interior um sentimento de agrado ou desagrado, mas pensar e sentir são em grande parte independentes entre si.

Na criança pequena, a configuração reinante é outra. Ela vê, por exemplo, um copo caído e diz espontaneamente: “o copo está cansado”. Uma criança de quatro anos observa o suporte de uma máquina fotográfica montada e diz: “mas este é orgulhoso”. A criança vê as coisas de maneira diferente do que do adulto. Ela não forma apenas uma representação mas, concomitantemente executa interiormente o que vê lá fora. Ao acompanhar concomitantemente o estar deitado o copo, ela sente “cansado”, e na forma esguia e alta do suporte da máquina ela sente interiormente: “Isto é orgulhoso”.

Tudo o que a criança vê e compreende através de suas representações, evoca imediatamente um “sentir junto” interior. É assim que o exterior se torna gesto na criança; as percepções tem um caráter fisionômico.

Só podemos compreender a vida anímica da criança quando nos fica claro que representar, sentir e querer não são relativamente autônomos como no adulto, mas que de imediato atuam conjuntamente. Aquilo que a criança vê é “co-vivenciado” imediatamente pelo sentimento e “co-realizado” por um movimento volitivo.

Cada sentimento é um movimento da alma. Este movimento pode ser tranquilo ou excitado, superficial ou profundo. A dinâmica do sentir age nas variações do ritmo respiratório e nas mudanças das batidas cardíacas assim como numa irrigação sanguínea, mais forte ou mais fraca dos músculos cardíacos. Os movimentos volitivos interferem nos processos vitais da musculatura e se revelam no movimento. Pela interligação interior da representação, do sentimento e da vontade, tudo o que a criança pequena vê atua imediatamente nos órgãos do seu corpo. Por sua característica moldável, os órgãos são incrivelmente sensíveis e influenciáveis. As vivências da alma agem sobre eles e imergem nos processos formadores vivos que atuam no meio ambiente. Aspectos anímicos passam para a formação orgânica.


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