Antropologia da primeira infância


ANTROPOLOGIA DA PRIMEIRA INFÂNCIA – PARTE 1

O conhecimento dos processos evolutivos na primeira infância

Ernest Michael Kranich

Tradução de Christa Glass e revisão de Ruth Salles


“Existe a necessidade de criar na primeira infância um fundamento que terá de perdurar por toda a vida, e em muitas crianças este fundamento vital já se torna quebradiço na época em que elas estão em formação.


Introdução – A Educação na primeira infância

A importância da primeira infância para a biografia humana é um dos maiores temas pedagógicos da atualidade. Isto tem vários motivos. Notou-se que a infância mudou sob a influência da civilização influenciada pela técnica. As crianças que atualmente entram no primeiro grau são diferentes daquelas que entravam há 25 anos: são nervosas, com um comportamento desarmônico, a saúde é frágil, e não se pode mais exigir tanto delas quanto era possível antigamente. Isto tem suas consequências na vida mais tarde. O resultado de pesquisas feitas nestes últimos anos mostra que em ¼ da população adulta das grandes cidades podem-se verificar distúrbios cuja origem está na tenra idade infantil. Distúrbios como neurose, doenças psicossomáticas, distúrbios na personalidade e vícios.

Estes fatos indicam a necessidade de criar na primeira infância um fundamento que terá de perdurar por toda a vida, e em muitas crianças este fundamento vital já se torna quebradiço na época em que elas estão em formação. Assim sendo, tem-se dado um peso cada vez maior às questões da educação na primeira infância.

A responsabilidade perante o desenvolvimento da criança pequena também se fez através de observações feitas há anos nos países anteriormente socialistas. Lá as crianças de dois anos, e até mesmo já em seu primeiro ano de vida, eram postas em escolas maternais, para que as mães pudessem trabalhar em fábricas, escritórios e outros lugares, a fim de darem sua contribuição produtiva ao Sistema Nacional Socialista – isto, porém, em prejuízo das crianças como demonstram as observações de médicos húngaros. As crianças do maternal adoeciam com muito mais frequência que aquelas que podiam passar seus primeiros anos em casa. Tem-se, portanto, um juízo claro sobre as consequências do meio-ambiente educacional na criança pequena. Os dados que se seguem comprovam: adoeceram com pneumonia 1,5% das crianças que ficaram em casa e 11% das crianças do maternal. A gripe atingiu 20% das crianças que ficaram em casa e 60% das crianças do maternal. Paralelamente a esta fragilidade da saúde, surgiram distúrbios no desenvolvimento da fala e no comportamento social. Isto se tornou tão grave na Checoslováquia que as mães passaram a receber três anos de licença-educação depois do parto.

Se quisermos ir de encontro a crescente responsabilidade pedagógica em relação à criança pequena e ao desenvolvimento humano em nossa civilização baseada na técnica, necessitaremos de uma antropologia da primeira infância, um conhecimento dos processos evolutivos na primeira infância, uma visão clara das condições que propiciam este desenvolvimento e assim, obter conceitos concretos sobre as consequências destes processos de desenvolvimento na biografia subsequente.

A superação da força da gravidade através da Vontade

Pode se conhecer aspectos essenciais do caráter específico do desenvolvimento da primeira infância quando partimos daquele processo que leva à maior transformação dentro dos primeiros anos: a conquista da postura ereta. Temos, porém de observar esse processo sob vários aspectos. Quando acompanhamos o processo, o esforço que a criança faz nos primeiros meses para levantar a cabeça, como ela luta durante muitos meses contra o peso do seu corpo para finalmente, ao postar-se de pé, conquistar por fim a vitória sobre a força da gravidade, desde os pés até a cabeça, então compreenderemos que a criança é fundamentalmente um ser ativo.

É um ser que, já em suas primeiras semanas e meses, desenvolve a partir de seu próprio esforço, no qual, desde o início atua uma capacidade fundamentalmente humana: a necessidade de não permanecer no que foi recém-adquirido e sim continuar se esforçando para além do já conseguido. Hegel disse, em suas palestras histórico-filosóficas, que o desenvolvimento se fundamenta numa atividade interior, o “impulso para a perfeição cada vez maior”. Este anseio mais profundo já está presente na criança pequena. Ele se manifesta naquela força com a qual a criança vai superando, cada vez mais, a gravidade. Esta força é a vontade, a partir da qual o homem sempre atua quando se confronta ativamente com obstáculos. Para não haver mal entendidos, faz-se necessário esclarecer que o termo “vontade” não significa aqui o propósito de executar algo. A vontade é aquela força íntima que dá origem a ação, a execução. Com ela o homem vivencia sua atividade como vinda dele mesmo. A vontade é a própria força primordial do homem.

Quando a criança se eleva para a vertical em seu primeiro ano de vida, ela toma posse e permeia todo o seu corpo com essa força da vontade. É desta forma que o corpo se torna uma posse individual da criança.

A postura ereta significa a superação total da força da gravidade pela atuação soberana da vontade e, por outro lado, a exposição máxima ao equilíbrio.

Nas ciências já se discutiu muito sobre o motivo pelo qual o homem, ao contrário dos animais, adotou esta posição tão insegura de equilíbrio. Buscar a resposta em causas externas só leva a especulações e a resultados insatisfatórios. A criança não se apoia exteriormente sobre quatro pernas como o animal. Ela mantém seu equilíbrio através de uma força interior e, através disto, ela tem a seguinte vivência: eu tenho meu centro em mim mesmo; sou um ser que tem um centro em si mesmo. É por meio da vontade que supera a força da gravidade, que o homem se torna centralizado em si mesmo. Isto indica que a vontade tem características de Eu. Como Eu, designamos aquele âmbito a partir do qual o homem atua por si mesmo e onde ele experimenta concomitantemente o centro em si mesmo. Portanto, temos de fazer uma distinção entre Eu e autoconsciência, consciência do Eu. A consciência do Eu só aparece em torno dos três anos, quando certas regiões do cérebro (no córtex) adquiriram um certo grau de diferenciações. O Eu está presente desde o início da vida.


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