O Fígado e a Antroposofia

O FÍGADO E A ANTROPOSOFIA

Artigo publicado no Periodicum Weleda nº 41 Outono de 2007

fígado


“O fígado é o órgão que dá ao ser humano a coragem para transformar uma ação pensada em uma ação consumada… O fígado é o mediador que possibilita a transformação de uma ideia decidida em ação executada pelos membros.”

Rudolf Steiner


O fígado… é …. o órgão que dá ao ser humano a coragem para transformar uma ação pensada em uma ação consumada… O fígado é o mediador que possibilita a transformação de uma ideia decidida em ação executada pelos membros. Rudolf Steiner

Analisar o fígado não é nada fácil visto que ele exerce múltiplas funções. Trata-se de um dos maiores órgãos do corpo humano, e além disso, é o elemento central do metabolismo intermediário – ou, para deixar clara a imagem – o laboratório do corpo. Vamos analisar rapidamente suas funções mais importantes:

Armazenagem de energia: o fígado produz glicogênio (amido) e o armazena (cerca de quinhentas calorias por quilo). Simultaneamente, os carboidratos são transformados em gordura e armazenados em depósitos de gordura por todo o corpo.
Geração de energia: com os aminoácidos e os componentes gordurosos ingeridos nos alimentos, o fígado produz glicose ( = energia). Toda essa gordura vai para o fígado e pode ser usada e queimada para produzir energia.

Metabolismo da albumina: além de criar aminoácidos, o fígado também é capaz de sintetizar outros. Assim se torna um órgão de ligação entre a albumina (proteína) dos reinos animal e vegetal, que constitui a nossa alimentação, e a proteína humana.Os vários tipos de proteína são por certo bastante diferentes entre si, no entanto, os componentes que formam as proteínas – os aminoácidos são universais. (A título de analogia, uma grande variedade de tipos de casa individuais – as proteínas – podem ser construídas com os mesmos tijolos – os aminoácidos). As diferenças específicas entre a proteína vegetal, a animal e a humana são as funções dos vários padrões em que os aminoácidos são organizados, sendo a sequencia exata codificada no ADN.

Desintoxicação: tanto as toxinas do próprio corpo como as de outras procedências são desativadas no fígado e solubilizadas para serem eliminadas através da visícula e dos rins. Além disso, a bilirrubina (um produto da decomposição das células vermelhas no sangue, a hemoglobina) tem de ser transformada pelo fígado numa substância que possa ser expelida. Qualquer interrupção desse processo provoca icterícia. Finalmente, o fígado sintetiza a ureia que é expelida através dos rins.

Eis o sumário das funções mais importantes deste órgão tão versátil. Vamos iniciar nossa interpretação simbólica com o ponto mencionado por último, a desintoxicação. A capacidade desintoxicante do fígado pressupõe uma possibilidade de discriminar e avaliar, pois a desintoxicação se torna possível quando não se consegue separar o que é venenoso do que não é. Portanto, os distúrbios hepáticos sugerem problemas de avaliação e valorização, indicam incapacidade de optar pelo que é útil ou inútil (nutrição ou veneno?). Enquanto formos capazes de avaliar o que nos serve e o que não nos serve e soubermos até que ponto podemos processar e digerir os alimentos, nunca surgirá o problema de “cometer excessos”. O fígado só adoece devido aos excessos que cometemos: demasiada gordura, comer demais, beber em excesso, tomar drogas de forma exagerada etc.

Um fígado doente mostra que a pessoa está assimilando algo em demasia, algo que ultrapassa sua capacidade de elaboração; mostra a falta de moderação, idéias exageradas de expansão e ideais elevados demais.

É o fígado que gera e distribui a nossa energia. O doente que sofre do fígado sofre consequentemente da perda dessa força vital e dessa energia: perde a potência, perde o apetite por comidas e bebidas. Perde, na verdade, a vontade em todos os âmbitos relacionados às manifestações de vida, e assim, corrige e compensa o problema através do sintoma que, nesse caso, se chama excesso. Trata-se de uma reação física contra sua imoderação e sua mania de grandeza, e a lição administrada é desapegar-se desses excessos. Visto que não são mais formados os fatores de coagulação sanguínea, o sangue se torna fluido demais; assim, o sangue do paciente , seu suco vital, literalmente se escoa. Através da doença, os pacientes aprendem a ser moderados, a ter paciência e a se controlar no que se refere a excesso de sexo, bebidas e alimentação. Podemos ver nitidamente essa condição no caso da hepatite.

Além disso o fígado tem uma forte conotação simbólica nos âmbitos filosófico e religioso, embora talvez não seja muito fácil para as pessoas chegarem a esta conclusão. Vejamos melhor o processo de síntese de proteínas. a proteína é o “tijolo da construção”, o elemento básico de toda a vida. Ela é manufaturada a partir dos aminoácidos. O fígado extrai a proteína animal e vegetal dos alimentos que ingerimos, alterando a organização espacial das moléculas dos aminoácidos. Em outras palavras, enquanto retém os componentes isolados de formação individual (os aminoácidos), o fígado altera o modo como os mesmos são estruturados no espaço, provocando um salto qualitativo e, por conseguinte, um salto evolutivo do reino vegetal e animal, para o reino humano. Ao mesmo tempo, porém, apesar deste avanço evolutivo, a identidade das moléculas é mantida e por isso elas conservam o elo com sua fonte. Portanto, a síntese da proteína é um exemplo microcósmico total daquilo que chamamos “evolução” no nível macrocósmico. Por meio de uma reorganização e de uma alteração do padrão qualitativo das “moléculas primordiais” sempre idênticas se cria uma infinita multiplicidade de formas. Através da constância do “material” tudo continua interligado, e é por isso que os sábios dizem que o todo está nas partes e que cada parte é o todo (pars pro toto ).

Uma outra expressão para transmitir esse conhecimento é a palavra religio, literalmente “conexão retrospectiva”. A religião busca nos unir coma fonte, com a origem, com o Todo- Uno e redescobre essa conexão e, virtude do fato de a diversidade que nos separea da unidade ser, em última análise, apenas uma ilusão (maya), que só acontece graças aos jogos dos vários arranjos (padrões) da mesma essência comum. É por esse motivo que o caminho de volta só pode ser descoberto pelos que conseguiram enxergar através da ilusão das diferenças de forma. O muito e o uno – é no campo entre ambos os pólos de tensão que trabalha o fígado.

Fonte: A Doença como Caminho (Thorwald Dethefsen e Rudiger Dahlke)

O FÍGADO E A VITALIDADE – Problemas comuns como depressão e enxaqueca podem estar relacionados ao fígado

Se nos últimos 50 anos ocorreram grandes avanços no tratamento e prevenção das doenças cardíacas, nos próximos 50 provavelmente assistiremos isso acontecer em relação às doenças do fígado. Além da hepatite C, que hoje acomete 3% da população mundial e supera a AIDS em número de casos, diversas outras doenças hepáticas passam ganhar maior importância nos meios científicos.

O fígado, maior víscera do corpo humano, é um de nossos órgãos essenciais. Pela veia porta chega ao fígado todas as substâncias absorvidas pelo tubo digestivo, com exceção de parte dos lipídios que é transportada por via linfática. Ao receber esses nutrientes, o fígado sintetiza proteínas e armazena glicose para ser usada nos períodos de jejum, além de vitaminas e gorduras.

Outras funções não menos importantes são a desintoxicação e neutralização de toxinas que tenham sido absorvidas, e a secreção de bile, que se concentra na vesícula, para participar da digestão especialmente de gorduras.
Cerca de 71% da composição do fígado é de água. Para se ter uma idéia comparativa, o sangue tem 78%. Por isso a medicina antroposófica o chama de “órgão água”. Ao lado disso ele participa ativamente do balanço hídrico do corpo humano. Como a água é o veículo imprescindível da vida, o fígado é o principal órgão da nossa vitalidade.
De acordo com Rudolf Steiner e Ita Wegman, criadores da medicina antroposófica, no metabolismo existem 2 ritmos complementares e alternados: a atividade biliar e a atividade hepática. A primeira é diurna, tem seu pico às 15 horas, é catabólica, caracterizada pela maior excreção de bile – o que explica a melhor tolerância aos alimentos gordurosos durante o dia. À noite, com pico às 3 horas, predomina a atividade do fígado, de anabolismo, de armazenamento de glicose.

Para a medicina antroposófica, as doenças psíquicas podem se originar na esfera orgânico-vital. Depressão e insônia, por exemplo, podem ter sua origem no metabolismo, especialmente no fígado, assim como a enxaqueca.
O fígado faz a individualização das substâncias e cuida do metabolismo energético, o que nos confere vontade, força para decisão e atuação. O correto funcionamento do fígado deve trazer os aspectos fleumáticos do temperamento: bem estar, aparência jovial e uma boa “metabolização” das vivências tristes, que não chegam a causar depressão. O mal funcionamento do fígado pode levar à fraqueza de vontade, inércia, depressão, sintomas digestivos (empachamento, gosto amargo, intolerância à gordura) e medo da vida.

Quando Hipócrates, o pai da medicina, nomeou a melancolia, ele fazia referência a um processo hepático mórbido (mélas, ‘negro’ + kholê, ‘bile’; melancolia: bile negra).

Para harmonizar o ritmo fígado – atividade biliar, algumas orientações alimentares são úteis. Na depressão, a pessoa não se interessa pelo mundo. Para que exista na alma esse interesse, deve-se formar no metabolismo a base do mesmo processo, relacionado ao alimento – que vem do mundo externo. Os amargos assumem papel central – rúcula, agrião, chicória, almeirão, boldo do Chile, mil folhas, losna, carqueja etc. Somados aos condimentos, eles fazem o processo digestivo ter mais “interesse” pelo alimento, aumentando a quantidade e a qualidade dos sucos digestivos. Devem ser evitados: açúcar concentrado, as gorduras animais e o leite (extremamente fermentativo), e àqueles cansados mentalmente deve-se recomendar raízes e tubérculos coloridos (beterraba, cenoura, mandioquinha, salsa, etc.) para vitalizar o sistema neuro sensorial.

Deve se dar preferência aos alimentos orgânicos, visando não intoxicar ainda mais o fígado com os agrotóxicos e fertilizantes químicos, usualmente encontrados nos alimentos não orgânicos.

Ritmo é fundamental, pois a base de nosso metabolismo está ligada ao ritmo, contrariamente às tendências da vida moderna. Sono e vigília; trabalho e descanso; horários regulares de alimentação – quando tudo isso ocorre com harmonia, existe uma capacidade vital maior.

Obviamente que esse é apenas o início de um tratamento mais profundo, que deverá ser conduzido por médico com experiência no assunto.

Visão semelhante tem a medicina tradicional chinesa, que considera que no fígado aloja-se o hun, a alma etérea, que dá a capacidade de realizar os sonhos, ter estratégias com discernimento e sabedoria, e é afetado pela raiva.
Ao lado daquilo que essas abordagens médicas holísticas dão aos problemas do fígado, cabe a cada um cuidar bem de sua vitalidade, para assim assistir o que virá nos próximos 50 anos. Ou 100.


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13 opiniões sobre “O Fígado e a Antroposofia”

  1. Procure um médico antroposófico em sua cidade, será um acompanhamento bem importante!!! Pode transformar mtos processos dessa criança… Digo de coração!! Qto ao conhecimento do que exatamente pode ocorrer neste caso, não tenho de maneira a explicar-te tão bem. Mas é um orgão vital que já veio com uma carga energética de outro, portanto para ele processar tudo isso, e sendo um bebê, é extremamente relevante o acompanhamento… 🙂

  2. Boa tarde, internautas e à equipe deste site!
    Leveza e equílibrio parecem fáceis de serem dançados nesta corda bamba do artista.
    Mas por ser desafiador, coloca-se em cheque os fortes dos fracos.
    Sim.
    Na essência, descobrimos o que realmente importa quando nos desafiamos. E neste processo, ganhamos e perdemos.
    Vale a pena?
    O que fica?
    Por que este órgão tem a capacidade de regeneração?
    Dois parceiros ativos, a mente e o coração sadios, ajudam-no neste processo de recuperação?
    O que seria sermos sadios?
    Um forte abraço!
    Att.: Dra Sekimoto, K.Mami

  3. Meu filhho tem um hemangioma no figado. Ele é sempre inseguro e não consegue transformar ideias em ação.
    Será que é por conta disso?
    O que pode ser feito?

  4. Interessante dizer, que em 8000 A/c nômades , começam a fixar em territórios, e pelas seus deslocamentos suas ovelhas procriavam mais em alguns locais e ou não, os sacerdotes cultos, começaram a ficar atentos a esse fato, descobriram que o espaço afetava o metabolismo dos animais, e concluiram com a hepatoscopia que eles estavam certos, a frequencia do sub-solo afeta os animais deixando o sangue mais acido e o animal em estresse.

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