REFLEXÃO: O QUE A PEDAGOGIA WALDORF PODE NOS ENSINAR SOBRE O PAPEL DO ESTADO


REFLEXÃO: O QUE A PEDAGOGIA WALDORF PODE NOS ENSINAR SOBRE O PAPEL DO ESTADO

Leonardo Maia


O que a Pedagogia Waldorf pode nos ensinar sobre o papel do estado? O que a perspectiva da autoridade amada tem a nos ensinar? O que a importância do olhar individualizado do contexto e potencialidades da criança que cria as condições ideais para um desenvolvimento individual integral apoiada em uma perspectiva de integração social fundamentada em princípios como liberdade, fraternidade e igualdade pode contribuir para a compreensão do papel do “Estado”?


O primeiro ponto a se considerar nessa reflexão é a compreensão de que estamos na Era da Alma da Consciência (desenvolvimento do “EU”), que é uma das etapas do desenvolvimento do ser humano. Portanto, devemos considerar o Ser Humano como uma entidade ainda em desenvolvimento e podemos fazer uma correlação com uma criança que ainda está em desenvolvimento.

A partir dessa perspectiva, podemos (ou devemos) considerar o processo educacional. As crianças, na Pedagogia Waldorf, são educadas para realização dos ideais humanos de convivência moral-social baseados na liberdade com responsabilidade, fraternidade, respeito mútuo, consciência plena de igualdade de direitos e deveres. A pedagogia Waldorf estuda cada criança, individualmente, buscando suprir suas necessidades para um desenvolvimento integral.

Por quê isso? Qual o motivo dessa educação fraterna, de cooperação, respeito e valorização de todos os indivíduos?

Steiner diz: uma educação que responda às necessidades atuais e futuras do homem.

Portanto, Rudolf Steiner considerou a educação com uma perspectiva de desenvolvimento integral do ser humano para possibilitar sua integração harmônica no organismo social valorizando suas capacidades e predisposições individuais, pautadas nos impulsos de liberdade, igualdade e fraternidade, onde se tem liberdade (no pensar) com responsabilidade, igualdade ( jurídico- legal ) de deveres e direitos e fraternidade como respeito mútuo.

Se Steiner considera essa perspectiva para o ambiente social, pergunto como caminhamos estruturalmente para tal direção? Qual o papel do Estado para possibilitar, ou propiciar, o devido ambiente para tal realização? Ou o Estado não tem papel nisso?

Bom, daí podemos voltar para o processo Pedagógico Waldorf, fazer uma correlação, primeiramente entre a criança e o cidadão, e posteriormente entre o papel do professor e o do Estado. A criança em desenvolvimento seria análogo ao cidadão em desenvolvimento – aquele imaturo, sem a consciência social pautada nos valores do organismo social propostos por Rudolf Steiner.

Para tal desenvolvimento, a criança necessita de uma condução, pois ainda não está em plena capacidade de autonomia e consciência, que seria o processo pedagógico e suas diretrizes que o guiam. A criança pode desrespeitar o colega, levantar da carteira fora de hora, se recusar a fazer as atividades. Pode ter dificuldades de caráter cognitivo, físicos ou mesmo relacionados a questões de estrutura familiar ou mesmo econêmica. O mesmo vale para o cidadão, que pode agredir, roubar e etc… além de aspectos como falta de consciência social, como o desenvolvimento da fraternidade e cooperação e etc… ou seja, uma imaturidade que seria objeção à harmonização do organismo social (especialmente da perspectiva de Trimembração social da Antroposofia).

Ambos, tanto a criança quanto o cidadão em desenvolvimento (da perspectiva antroposófica), ou seja, o ser humano sem a devida consciência social, necessitam de reguladores ou condutores para que não ajam transpassando os limites de liberdade interferindo no bem estar social… os quais podemos correlacionar os educadores/professores com os representantes do Estado.

O professor/educador não pode ser eliminado do processo pedagógico para desenvolvimento da criança, como não há como eliminar o Estado regulador sem um nível coletivo de consciência no âmbito social. Não, você não pode fazer o que você quiser, existem regras de convivência, de tarefas e deveres tanto no âmbito pedagógico quanto na âmbito social do cidadão. A humanização da pedagogia é um caminho para a humanização das relações sociais que, no caso da Antroposofia, é fundamentada em princípios como liberdade (na vida espiritual – educação, ciência, saúde, religião, cultura), fraternidade (na vida econômica) e igualdade (na vida jurídica).

Fala-se que, em tal questão, o Estado deve ser substituído pela própria comunidade como reguladora, porém, para isso, é necessário um salto de conscientização social. Até lá se faz necessária a função do Estado regulador.

Porém, o Estado, que hoje impõe tais regras reguladoras, é representado por sistemas e indivíduos que não seguem tais diretrizes da Trimembração Social. O que gera uma desigualdade e principalmente, uma desarmonização das relações sociais, pautadas em valores distorcidos principalmente de ordem econômica, étnica, jurídica e ideológica, mesmo que ainda buscando (ou sob a justificativa de estar) uma perspectiva democrática em muitos dos casos. A vida econômica ainda é pautada na competitividade e egoísmo (versus fraternidade), a vida espiritual não é livre (existe muita perseguição ideológica, religiosa e inclusive étnica e econômica) e a vida jurídica é desigual. Além disso sua atuação é impositiva e agressiva, e, muitas vezes ditatorial, pois as ações e leis que o regulam são conduzidas por indivíduos sem a necessária consciência social. Além do fator generalizador, que não considera a perspectiva do contexto individual do cidadão (colocando grupos em seus pacotes discriminatórios).

Bom, dessa perspectiva, pergunto: qual é o caminho?

É difícil dar uma resposta pontual como solução mágica para um processo que envolve tal complexidade de fatores, porém podemos voltar e correlacionar com o âmbito da Pedagogia Waldorf. Existe um ponto chave a se considerar: o regulador/condutor do processo pedagógico na Pedagogia Waldorf pode nos dar uma pista: o professor.

Qual a perspectiva do professor segundo a Pedagogia Waldorf? O papel como educador é de remover as dificuldades, para que a criança desenvolva o conhecimento por si própria, para que sozinhas sejam capazes de desenvolver escolhas com a consciência de seus impactos no Eu, do outro e no ambiente, aliados a uma perspectiva ética e moral pautadas em valores mais humanos e sociais (altruístas: liberdade com responsabilidade, fraternidade, respeito mútuo, consciência plena de igualdade). Além disso, o amor que os professores Waldorf devem desenvolver pelos seus alunos, e o conhecimento profundo que eles adquirem de cada aluno são outras características fundamentais da pedagogia. Para isso devem ter grande grau de autodesenvolvimento e presença de Espírito para atuar de forma pontual para corroborar com o pleno desenvolvimento das capacidades e qualidades inerentes da criança: gratidão religiosa frente ao cosmo que se manifesta na criança consciente de que a criança representa um enigma divino.

Ou seja, a sacramentação do foco de ação: a criança. A criança torna-se um ser sagrado e ao sacramentar a criança, eu sacramento o meu próprio trabalho, minha própria missão.

Ao estar permeado desse sentimento verdadeiro de reverência ao ser da criança, ao estar imbuído de amor verdadeiro para atuação no processo de educar, este amor reverbera no íntimo da criança. Daí surge um respeito e veneração à atuação do professor por parte da criança: a autoridade amada. Ela o respeita e acolhe porque percebe esse amor, essa sacramentação da sua atuação perante a si mesma.

Para isso Steiner traz a importância do trabalho interior do professor, para que ele esteja permeado e consciente de sua tarefa: ser capaz de sacramentá-la.

Ao correlacionar a criança com o cidadão (como reflexão, repito), podemos perceber que precisamos que os representantes sacramentem sua posição como reguladores do papel do Estado – que deveria seguir o propósito de dignificação da vida de todos cidadãos, sem exceção, baseado em princípios como liberdade, fraternidade e igualdade – principalmente se levarmos em conta a Trimembração Social da Antroposofia.

Seria como um “Estado Waldorf”, onde a ação do Estado é sacramentada perante o indívuo (cidadão) com o objetivo de dignificação da vida social, sem exceções. Onde seus representantes tenham a chamada “iniciação moderna”, ou seja, tenham consciência pontual de sua atuação e seu papel perante a sociedade e sejam capazes de criar uma egrégora sagrada em prol dessa dignificação do ser humano em todas as esferas.

Representar uma nação por 4 anos deveria ser uma oportunidade de contribuir para a realização dos ideais humanos de convivência moral-social baseados na liberdade com responsabilidade, fraternidade, respeito mútuo, consciência plena de igualdade de direitos e deveres, valorizando e dignificando cada célula do organismo social, sem exceções, possibilitando o florescimento da comunidade e de cada indivíduo.

Para isso se faria necessário o mesmo trabalho interior indicado ao professor waldorf aos representantes do Estado, para que eles também estejam permeados e conscientes de suas tarefas e sejam capazes de sacramentá-las.

É um caminho difícil e complexo, com certeza, porém inalcançável se não direcionamos nosso pensar, sentir e querer nesta direção. O ato consciente de escolher as pessoas mais preparadas, com os valores e perspectivas mais alinhadas com tais propósitos, e mesmo não querer separar tal esfera de tal pensamento: o ambiente político não se mistura com a Antroposofia, será mesmo?

Repito que é apenas uma reflexão pessoal: “o pensar é o elemento através do qual o homem penetra espiritualmente na realidade.” Filosofia da liberdade (Rudolf Steiner)

Leonardo Maia


Sinta se o conteúdo faz sentido para você ou não para compartilhar:


 AJUDE A MANTER A BIBLIOTECA NO AR:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *