Rudolf Steiner: Após a morte

APÓS A MORTE

Rudolf Steiner – GA 234 – Dornach, 10 de fevereiro de 1924

Tradução: Leonardo Maia

Fonte: www.rudolfsteinerquotes.wordpress.com – clique e conheça

Man on the edge of pier

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Se, em uma experiência com outro ser humano, nós lhe causamos alguma dor – existe uma contraparte espiritual no mundo físico; no entanto, não é nossa experiência: é a dor experimentada por outro homem. Talvez o fato de que fomos a causa de sua dor até possa nos dar um certo sentimento de satisfação; pois podemos ter sido movidos por um sentimento de vingança ou algo semelhante. Agora, revendo retroativamente as experiências da nossa vida, após a morte, nós não vamos passar pela nossa experiência, mas pela do outro. Nós experimentamos o que ele experimentou através da nossa ação. Isso, é uma contrapartida espiritual e está inscrita no mundo espiritual. Assim, quando, você experimenta, após a morte, a dor de outro homem por ter lhe causado esta dor na terra, você diz para si mesmo:

“Se eu não sentir essa dor, eu continuaria a ser uma alma imperfeita, e a dor que eu possa ter causado no universo estaria continuamente tirando alguma coisa de mim. Eu só posso tornar-me um ser humano completo, experimentando essa compensação.”

Rudolf Steiner – GA 234 – Dornach, 10 de fevereiro de 1924

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Quando atravessamos o portão da morte de nossa vida na terra, passamos por alguns dias nos quais imagens da vida que acaba de terminar vem até nós em uma perspectiva gigantesca. As imagens dos eventos de anos atrás e de nossos últimos dias estão lá simultaneamente.

Assim como o espaço existe lado a lado e só possui perspectiva espacial, os eventos temporais de nossa vida terrena agora são vistos lado a lado e possuem perspectiva temporal. Este quadro aparece de repente, mas durante um curto espaço de tempo, logo torna-se cada vez mais enuviado, mais e mais fraco. Considerando que, na vida terrena olharmos para nós mesmos e sentimos que temos nossa memória ‘enrolada’ dentro de nós, agora estas imagens se tornam cada vez maiores. Nós as sentimos como se estivessem sendo recebidas pelo universo. A lembrança que primeiramente era comprimida dentro do quadro da memória como em um espaço estreito, torna-se cada vez maior, cada vez mais enuviada, até que percebamos que ela se expandiu a um universo, tornando-se tão sutil que mal podemos decifrar o que vimos pela primeira vez claramente. Nós ainda podemos percebê-la; em seguida, ela desaparece em espaços distantes e não está mais lá.

Essa é a segunda forma assumida pela memória – em certo sentido, sua segunda metamorfose, que ocorre nos primeiros dias após a morte. É a fase que podemos descrever como o voo das nossas memórias para o cosmos. E tudo o que, como memória, estava tão intimamente ligada à nossa vida entre o nascimento e a morte, se expande e torna-se cada vez mais dissipada, até finalmente se perder nos amplos espaços do cosmos.

É realmente como se nós víssemos o que chamamos de ego durante a vida terrena, desaparecer nos amplos espaços do cosmos. Esta experiência dura alguns dias e, quando estes se passaram, nós sentimos que nós mesmos estamos expandindo também.

Entre o nascimento e a morte nos sentimos com nossas memórias; e agora nós realmente sentimos essas memórias sendo tragadas rapidamente pelos amplos espaços do universo.

Depois de ter sofrido este estupor supra-sensível, ou desmaios, que tira de nós a soma total das nossas memórias e de nossa consciência interior da vida terrena, vivemos na terceira fase da memória. Esta terceira fase de memória nos ensina que o que tínhamos chamado a nós mesmos durante a vida terrena – em virtude das nossas memórias – espalhou-se através dos amplos espaços do universo, provando assim a sua insubstancialidade para nós. Se fôssemos apenas o que pode ser preservado em nossas memórias entre o nascimento e a morte, não seríamos absolutamente nada, alguns dias após a morte.

Mas agora nós entramos em um elemento totalmente diferente. Percebemos que não podemos manter nossas memórias, pois o mundo as leva de nós após a morte. Mas há um objetivo por trás todas as lembranças que temos abrigado durante a vida terrena. A contraparte espiritual está gravada no mundo; e é nessa contraparte das nossas memórias que agora entramos.

Entre o nascimento e a morte temos experimentado isso e aquilo com esta ou aquela pessoa, com tudo o que temos abordado durante a vida. Não existe uma única experiência cuja contrapartida não seja gravada no mundo espiritual no qual estamos sempre presentes, mesmo enquanto estamos vivos na terra. Cada aperto de mão tem sua contraparte espiritual; está lá, inscrita no mundo espiritual. Só enquanto estamos examinando a nossa vida nos primeiros dias depois da morte temos estas imagens de nossa vida diante de nós. Estas estão ocultas, até certo ponto.  Não percebemos muito do temos inscrito para o mundo através de nossos atos, pensamentos e sentimentos.

No momento que atravessamos o portão da morte para essa outra “vida”, somos imediatamente preenchidos com o conteúdo do nosso quadro de vida, ou seja, com imagens que se estendem retroativamente, em perspectiva, de volta ao nascimento e mesmo além.

Mas tudo isso desaparece nos espaços cósmicos e agora vemos as contra-imagens espirituais de tudo que temos feito desde o nascimento. Todas as contra-imagens espirituais que experimentamos (inconscientemente, durante o sono) tornam-se visíveis, e de tal forma que somos imediatamente impelidos a refazer nossos passos e passar por todas essas experiências mais uma vez.

Na vida comum, quando vamos partir de um lugar para outro sabemos que podemos voltar, pois temos no mundo físico uma concepção adequada de espaço. Mas, na consciência comum, nós não sabemos que, quando nós vamos desde o nascimento até a morte, que também podemos ir da morte até o nascimento. Assim como no mundo físico pode-se ir um lugar a outro e voltar, nós vamos do nascimento até a morte durante a vida terrena, e, após a morte, podemos retornar da morte para o nascimento. Isso é o que fazemos no mundo espiritual quando experimentamos, de forma retroativa, as contra-imagens espirituais que vivenciamos durante a vida terrena.

Suponha que você tenha tido uma experiência com algo na Natureza – digamos, com uma árvore. Você observou a árvore ou, como um lenhador, cortou-a. Ora, tudo isso tem a sua contrapartida espiritual; se você apenas observou a árvore, cortou-a, ou fez qualquer outra coisa para ela, tudo tem o seu significado para todo o universo. O que você pode experimentar com a árvore física, você experimenta na vida física terrena, mas agora, como você vai retroativamente da morte ao nascimento, é a contrapartida espiritual dessa experiência que você vivencia.

Se, no entanto, nossa experiência foi com outro ser humano – se, por exemplo, nós lhe causamos alguma dor – já existe uma contraparte espiritual no mundo físico; no entanto, não é nossa experiência: é a dor experimentada por outro homem. Talvez o fato de que fomos a causa de sua dor até possa nos dar um certo sentimento de satisfação; pois possamos ter sido movidos por um sentimento de vingança ou algo semelhante. Agora, revendo retroativamente as experiências da nossa vida, neste caso nós não vamos passar por nossa experiência, mas pela do outro. Nós experimentamos o que ele experimentou através da nossa ação. Isso, também, é uma contrapartida espiritual e está inscrita no mundo espiritual.

Assim, quando, por exemplo, você experimenta após a morte a dor de outro homem por ter lhe causado esta dor na terra, você diz para si mesmo:

“Se eu não sentir essa dor, eu continuaria a ser uma alma imperfeita, e a dor que eu possa ter causado no universo estaria continuamente tirando alguma coisa de mim. Eu só posso tornar-me um ser humano completo, experimentando essa compensação.”

Pode ser muito duro ter essa dor experimentada após a morte como compensação pela dor causada ​​a outra pessoa, mas é realmente uma bênção. Vai depender da constituição interna da nossa alma se acharemos isto difícil ou não; mas há um certo estado de alma em que esta compensação dolorosa para muitas coisas na terra é ainda uma experiência de bem-aventurança. É o estado de alma que resulta da aquisição na terra de algum conhecimento da vida supra-sensível. Nós sentimos que, através desta compensação dolorosa, estamos aperfeiçoando nosso estado humano, enquanto que, sem ela, nós ficaríamos aquém da capacidade humana.

Se você causou dor ao outro, você é de menos valor do que antes; assim, se você julgar razoavelmente, você dirá: Em face do universo, eu sou uma alma humana pior depois de causar dor para um outro. Então você vai se sentir abençoado ao perceber que é capaz, após a morte, de compensar essa dor por vivencia-la por si mesmo.

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