RUDOLF STEINER E OS MOVIMENTOS SOCIAIS


RUDOLF STEINER E OS MOVIMENTOS SOCIAIS

Leonardo Maia


Definições banais de movimentos sociais são utilizados por falta de profundidade, busca autêntica ou mesmo por egoísmo ideológico, principalmente se, por questão de valores e moralidade, buscarmos compreender o impulso essencial das consciência individuais que estão por trás de tais movimentos: altruísmo, justiça social, respeito e dignidade ou interesses pessoais, econômicos e doutrinários?


Em carta, John Henry Mackay – poeta e filósofo, colocou para Steiner uma perspectiva sobre o movimento social classificado/designado como “Anarquista” na época, que carregava o slogam “Propaganda of the Deed”. Estes movimentos utilizavam táticas de violência e alimentavam um espírito de revolta para demonstrar que o estado não era onipotente e oferecer esperança aos oprimidos, porém classificou-os, não como anarquistas, mas todos como comunistas revolucionários. (Interessante notar a classificação de comunistas revolucionários grupos que lutam contra a onipotência do Estado, contrapondo o conceito “comunista” banalizado nas redes sociais).

Em contraponto, John Henry Mackay trouxe o movimento do “anarquismo individualista”, conceito proposto pelo americano Benjamin Tucker, que era anarquista e socialista, que prioriza o indivíduo e sua vontade sobre todo tipo de determinação externa, tais como moralidade, ideologia, costume social, religião, metafísica, ideias ou vontade de terceiros. Possui um viés socialista/comunista, porém acredita no direito a propriedade, porém também dever do indivíduo de partilhar com aqueles que necessitam como gesto de altruísmo, entretanto, tal benevolência não pode ser forçada, sendo questão da liberdade individual: o “julgamento pessoal”. E também acredita no Estado mínimo – o qual é classificado com é um “mal necessário” que se tornaria cada vez mais irrelevante e impotente pela expansão gradual do consciência coletiva. Também contra movimentos que utilizem a violência e depredação, porém esta que pode surgir quando uma sociedade é ameaçada por força violenta.

Tucker desaprovava a propriedade do governo porque, para ele, o controle estatal era a forma mais completa e desagradável de monopólio, afirmando: “O governo é um tirano vivendo por roubo e, portanto, não tem negócios para se envolver em nenhum negócio. […] o governo não possui as características de um homem de negócios bem-sucedido, sendo desperdiçador, descuidado, desajeitado e míope ao extremo “. Tucker sustentou que todas as formas de atividades autoritárias implicam o recurso à força e nada de bom ou duradouro jamais foi alcançado por compulsão. Assim, ele recusou-se a tolerar a derrubada do Estado por meios violentos, argumentando: “Se o governo fosse abruptamente e totalmente abolido amanhã, provavelmente haveria uma série de conflitos físicos sobre a terra e muitas outras coisas, terminando em reação e reavivamento. da antiga tirania “. Por isso, Tucker pregou educação generalizada e, finalmente, quando a sociedade atingisse esse estado, a liberdade individual para todos prevaleceria como uma questão de disciplina.

Por fim, era contra o estado e o capitalismo, contra a opressão e a exploração. Embora não fosse contra o mercado e a propriedade, ele era “firmemente contra o capitalismo, pois era, aos seus olhos, um monopólio estatal do capital social” que “permite que os proprietários explorem seus funcionários.

Tucker se opôs duramente ao socialismo de estado e foi um defensor do socialismo libertário que ele chamou de socialismo anarquista.

Em resposta, Steiner trouxe várias reflexões pessoais em relação à tais colocações:

“Até agora, sempre evitei usar até o termo “anarquismo individualista” ou “anarquismo teórico” para minha visão de mundo… se alguém declara suas opiniões de forma clara e positiva em seus escritos: qual é a necessidade de designar essas visões com uma palavra conveniente? Afinal, todo mundo conecta noções tradicionais bastante definidas com essa palavra, que reproduzem apenas de forma imprecisa o que a personalidade em particular tem a dizer. Eu falo meus pensamentos; Eu caracterizo meus objetivos. Eu próprio não tenho necessidade de nomear minha maneira de pensar com uma palavra habitual.”

Este trecho é interessante para fazer uma ponte com as designações cristalizadas que rotulam, de forma genérica e superficial, as formas multifacetadas do pensamento individual, onde hoje vemos, coincidentemente, como exemplo, a designação “socialista/comunista” para todo aquele que contrapõe a imposição, a degeneração e injustiça social ou a restrição à liberdade e que são contra o autoritarismo governamental (ou, hoje, mesmo simplesmente fazendo oposição ou questionam o atual governo), generalização exatamente como criticada em relação ao “anarquismo individualista” por Steiner, que, por tal generalização pode inserir o indivíduo, por exemplo, no termo “comunista revolucionário” cunhado por John Henry Mackay na carta, reproduzem de forma imprecisa a individualidade, pois a dissolve num movimento/pensamento coletivo.

Porém, Steiner, considerando um limiar de representação da perspectiva do indivíduo pelos conceitos, continua:

“Se, no entanto, eu dissesse, no sentido na qual essas coisas podem ser decididas, se o termo “anarquista individualista” é aplicável a mim, eu teria que responder com um “SIM” incondicional… …não sou tão otimista quanto você, querido Herr Mackay, que simplesmente diz: “Nenhum governo é tão cego e tolo a ponto de agir contra uma pessoa que participa da vida pública apenas através de seus escritos e o faz no sentido de uma reformulação da condições sem derramamento de sangue “. Você não considera com quão pouca racionalidade o mundo é governado…

…. O “anarquista individualista” não quer que ninguém seja impedido por nada, capaz de revelar as habilidades e forças que nele existem. Os indivíduos devem se afirmar em uma batalha de competição totalmente livre. O estado atual não faz sentido para esta batalha de competição. Isso dificulta o indivíduo a cada passo do desenvolvimento de suas habilidades. O Estado odeia o indivíduo.

O Estado diz: só posso usar uma pessoa que se comporta assim e assim. Quem quer que seja diferente, vou forçá-lo a se tornar do jeito que eu quero… …e se você não é assim, você precisa se tornar assim. O anarquista individualista, por outro lado, sustenta que a melhor situação resultaria se alguém desse caminho às pessoas de maneira livre. Ele tem a confiança de que eles mesmos encontrariam sua direção. Naturalmente, ele não acredita que, depois de amanhã, não haja mais ladrões/malandros/marginais se alguém abolir o estado. Mas ele sabe que não se pode, por autoridade e força, educar as pessoas a se tornarem livres. Ele sabe uma coisa: abre caminho para as pessoas mais independentes, eliminando toda a força e autoridade.”

Vale fazer uma pergunta em relação ao atual “perigo eminente da ditadura Comunista” ou “Agenda Comunista para a Nova Ordem Mundial”, como propagada pela direita conservadora: como um movimento que pede eliminação da força e autoridade, principalmente questionando a imposição de tornar o indivíduo do jeito que o Estado quer, pode gerar uma Ditadura Comunista?

Outra pergunta é: como um impulso para liberdade de pensar e seguir seu caminho em contraponto a um Estado opressor que exige uma forma doutrinária de pensamento pode ser uma imposição ideológica? Como um paradoxo: Eu exijo liberdade de pensamento X imposição ao outro que ele deva libertar o pensamento alheio (estou impondo uma ideologia ao outro), algo similar ao intolerante com o intolerante – se você não tolera a minha intolerância, você também é um intolerante. Estes argumentos são utilizados com frequência para justificar a opressão e a liberdade hoje.

Outro ponto interessante é a falsidade intelectual, onde distorço aspectos da realidade por conveniência e interesse, seja pessoal ou ideológico. Como por exemplo, a “Escola sem partido”, que é em verdade a imposição de uma ideologia restritiva e doutrinária no pensamento utilizando, como justificativa para tal imposição, a argumentação de doutrinação comunista – não que não possa haver influência (e há) da ideologia pessoal do educador, pois tal influência é inerente ao processo de educação, porém a luta é contra o pensamento crítico que contrapõe as falhas da situação (governo): não queremos exposição ou questionamentos em relação à nossa condução/imposição/erros/agenda. Então tal projeto “Escola sem Partido” seria claramente uma “Escola do partido da direita conservadora” com viés ideológico e imposição doutrinária ao pensamento individual. Por isso, sua justificar sua imposição é uma falsidade intelectual.

Outro exemplo seria a restrição à Liberdade pela Agenda Comunista (hoje, chinesa), na imposição de uma quarentena. Obviamente, restringir a liberdade numa pandemia é por colocar a vida de pessoas em risco, facilmente justificada pela quantidade de mortes. Minha liberdade termina onde começa a do outro, portanto, é uma questão de saúde pública. E tal argumentação de plano comunista para restrição da liberdade individual também é uma falsidade intelectual.

Nesse aspecto da falsidade intelectual, podemos pontuar a influência de Ahriman, quando sabe-se que não é real porém utiliza-se a argumentação por conveniência (uma mentira para justificar algum aspecto, geralmente do aspecto/interesse pessoal). Já na outra polaridade, temos o grupo que acredita realmente em tais fatos, neste caso trata-se de influência Luciférica, que tira a percepção da realidade baseada numa espécie doutrinação – neste caso não é falsidade intelectual, e sim, fanatismo.

Steiner continua:

“Mas é com força e autoridade que os estados atuais são fundados. O anarquista individualista mantém inimizade com eles, porque suprime a liberdade. Ele não quer nada além do desdobramento livre e sem impedimentos de poderes. Ele quer eliminar a força, que oprime o livre desenvolvimento. Ele sabe que, no momento final, quando a social-democracia tiver suas conseqüências, o Estado terá seus canhões funcionando. O anarquista individualista sabe que os representantes da autoridade sempre buscarão medidas de força no final. Mas ele tem a convicção de que tudo da força suprime a liberdade. É por isso que ele luta contra o Estado, que repousa sobre a força – e é por isso que ele luta com a mesma energia contra a “propaganda of the deed”, que não menos se baseia em medidas de força. Quando um estado decapita ou trava uma pessoa – pode-se chamá-lo como quiser – por causa de sua opinião, que parece abominável para o anarquista individualista. Naturalmente, não parece menos abominável para ele quando um Luccheni esfaqueia uma mulher que é a imperatriz da Áustria. Pertence aos primeiros princípios do anarquismo individualista a batalha contra coisas desse tipo. Se ele quisesse perdoar, teria que admitir que não sabe por que está lutando contra o Estado. Ele luta contra a força, que suprime a liberdade, e luta contra ela da mesma forma quando o Estado faz violência a um idealista da ideia de liberdade.”

Aqui Steiner coloca o ponto da força e opressão, tanto por parte do Estado quanto por parte dos movimentos anarquistas do “Propaganda of the Deed”. Vale fazer uma relação com os atuais movimentos “Pró democracia/Antifascistas” atuais do Brasil e o movimento “Black Lives Matter” (inicialmente americano e agora mundial). Existe um movimento contra a depredação e violência, para que os protestos sejam pacíficos, porém temos alguns fatores impeditivos:

– A revolta de grupos oprimidos, onde a opressão, por exemplo da população negra que é marginalizada, pode eclodir em um movimento de violência e depredação por parte de parcelas de indivíduos indignados.

– Instituições militares aparelhadas que agridem os movimentos pacíficos por ideologia partidária, gerando mais violência e depredação. Inclusive sendo fator de ignição.

– Militantes infiltrados para gerar confusão e caos, justificar a violência policial e deslegitimar tais manifestações.

Por fim, fica claro que definições banais de movimentos sociais são utilizados por falta de profundidade, busca autêntica ou mesmo por egoísmo ideológico, principalmente se, por questão de valores e moralidade, buscarmos compreender o impulso essencial das consciência individuais que estão por trás de tais movimentos: altruísmo, justiça social, respeito e dignidade ou interesses pessoais, econômicos e doutrinários?

Leonardo Maia

Fonte da Carta de John Henry Mackay e reposta de Rudolf Steiner: https://wn.rsarchive.org/Articles/Anarcy_index.html


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