A EVOLUÇÃO DO SER HUMANO

 

A EVOLUÇÃO DO SER HUMANO

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A ÉPOCA PÓS-ATLÂNTICA

A Ásia central, para onde se tinha dirigido o grupo conduzido por Manu, constituiu por muito tempo um centro de irradiação de impulsos espirituais. A evolução se fez desde essa época em ritmo mais acelerado. Assistimos a ciclos culturais menores, e a ciência espiritual nos ensina que cada um desses ciclos é naturalmente um fenômeno da humanidade inteira, embora encontrem seus protagonistas principais sempre em determinados povos, que lhe deram seus nomes. É como se um grupo saísse da penumbra para fazer uma contribuição valiosa para toda a humanidade, sendo substituído por outro, uma vez terminada sua missão.

Nesse sentido, dividimos a época pós-atlântica em vários períodos:

Um primeiro período pós-atlântico teve por cenário principal a Índia daí o seu nome de “Período Proto-índico”. O “proto” significa que estamos ainda em épocas anteriores às das civilizações históricas; assim, as grandes culturas históricas da Índia, com suas belas criações no campo da literatura, da religião e da filosofia, situam-se em épocas muito mais recentes; são, todavia, impregnadas pelo espírito da época proto-índica que durou, aproximadamente, de 7.200 a 5.000 A.C.

Os homens dessa época tinham ainda uma mentalidade bem diferente da atual. Viviam na recordação da origem espiritual da humanidade. Possuindo ainda uma certa clarividência, os mundos espirituais se lhes afiguravam como a “verdadeira” realidade. A existência no mundo físico era para eles como que uma expulsão passageira da sua verdadeira pátria espiritual. Não se sentiam à vontade na Terra, nem se interessavam pela existência terrena almejando, ao contrário, cortar o quanto antes os laços que os uniam à Terra. O mundo físico era, para eles, ilusão ou Maya. Encontramos a influência dessa atitude de fuga do mundo visível em toda a civilização hindu posterior, inclusive no bramanismo e no budismo.

Data da época proto-índica o sistema das castas, que era inicialmente uma divisão dos homens de acordo com o grau da sua pureza e evolução espiritual.

Já na segunda época pós-atlântica vemos aparecer um tipo de homem diferente. Essa época, a proto-persa, durou de 5.000 – 2.900 A.C. Seu guia espiritual era um grande iniciado, Zaratustra (personagem diferente do Zaratustra histórico, contemporâneo de Buda). Ele é descrito nas lendas como o inventor da domesticação dos animais e do cultivo das plantas, sobretudo dos cereais. Vemos, por essa lenda, que os homens dessa época se viraram resolutamente para a Terra, vendo nela o alvo de suas tarefas. Havia naturalmente uma consciência de que existiam mundos espirituais e de que o homem era um ser espiritual. Não obstante, o amor pela Terra e a vontade de dominá-la constituíam o fundo da mentalidade dos velhos persas.

Zaratustra sabia que o velho Sol, sede dos Exusiai, era o centro espiritual do nosso mundo. Vislumbrava no grande Espírito Solar (Ahura Mazdao-Ormuzd = Grande Aura do Sol) o ser divino que representava, por assim dizer, todas as forças do Bem. Mas conhecia também a existência das forças adversas sob a conduta de Árimã, deus das Trevas. O Universo se lhe afigurava como campo de batalha entre essas duas forças adversas, ambas de igual realidade. Temos aí a origem de todas as religiões e correntes “dualistas”, em particular do maniqueísmo e também dos cultos caracterizados pela adoração do Fogo ou do Sol.

O centro dessa época era a região iraniana.

Com a terceira época pós-atlântica entramos na História propriamente dita. Conhecemos a civilização dessa época, a egipto-babilônico-caldaica (2-900 – 750 A.C.) pelas ciências históricas comuns e sabemos que, nelas, o homem adquiriu definitivamente o sentimento de que esta Terra era o seu campo de ação. Havia ainda alguma clarividência, mas o interesse dos homens se concentrava na Terra. As grandes teocracias eram sistemas terrenos, embora o rei-sacerdote ainda fosse considerado como sendo de origem divina e recebendo as suas inspirações “de cima”. Mas, de um modo geral, o homem se comprazia na Terra e fazia tudo para ser feliz nesta vida, organizando-a de maneira prática. Assistimos ao surgimento da geometria e de outras ciências, embora ainda não sob forma abstrata. Invenções técnicas, como a da roda, e dos aparelhos mais simples, a arte da irrigação, a elaboração de princípios de direito e administração, caracterizam essa época.

Mas quando os homens queriam conhecer as forças motrizes do nosso planeta, voltavam-se para os espíritos localizados nos astros. Em estados excepcionais de clarividência, sentiam a influência desses espíritos, de acordo com a posição e a ação combinada das estrelas. Dessa astrologia nasceu a primeira astronomia, o conhecimento das trajetórias aparentes dos astros, dos eclipses e dos demais fenômenos celestes. Ainda não era uma ciência matemática e mecânica, onde os movimentos eram determinados pela lei da gravitação, mas sim uma sabedoria captada diretamente pelo conhecimento das forças espirituais dos astros!

Apesar do seu afastamento progressivo dos seres superiores, os homens dessa época sabiam muito bem quais as hierarquias superiores mais diretamente ligadas ao destino do homem. O supremo Deus Solar reaparece como Osíris e Tamuz, enquanto o conjunto das forças lunares era sentido como que personificado em Isis ou Ishtar. As forças adversas eram representadas por demônios ou deuses como Seth.

Contudo, muitos seres humanos não se podiam elevar à sabedoria suprema; inspirados por divindades inferiores ou anormais (seres luciféricos e arimânicos) dedicavam-se a uma sabedoria degenerada, origem de superstições e cultos selvagens.

Devemos ainda assinalar um fato importante. Na evolução anterior, o eu tinha “ocupado” os três corpos inferiores, e desse lento entrosamento tinham nascido as várias formas de consciência, que se manifestaram exteriormente pelos progressos do ser humano através das várias civilizações. Sua atitude perante o mundo marca o aparecimento de um novo elemento nessa terceira época pós-atlântica. Pela primeira vez o homem integrou-se totalmente no mundo físico pelo conjunto dos seus sentidos. Estes transmitiram-lhe, de maneira direta, o conhecimento do ambiente. É verdade que o pensamento do ser humano ainda não era conceitual e abstrato, mas apesar disso, o seu eu, em conjunto com os seus sentidos, permitiu-lhe situar-se conscientemente no mundo. Para isso era imprescindível um novo “órgão”, um novo elemento da sua personalidade, e nós vemos de fato desenvolver-se nessa época a “alma da sensação” ou “alma sensível”. Esta já existia antes; do contrário o homem não poderia ter tido sentimentos, em consequência das impressões sensoriais, mas só nesta altura ela foi “ocupada” e dominada pelo eu, e participou, de maneira relevante, de sua vida consciente.

A quarta época pós-atlântica, a greco-romana, estende-se aproximadamente de 750 A.C. até 1413 D.C. À primeira vista, pode parecer estranho que toda a Idade Média seja unida à chamada “Antiguidade Clássica”, num mesmo período. De fato, essas culturas são bem distintas entre si, mas acharemos a solução ao lembrar que as épocas pós-atlânticas da Antroposofia não são divisões históricas, mas sim períodos dominados por uma identidade de evolução espiritual. Todo esse período é caracterizado pela preponderância do intelecto, do raciocínio, da faculdade de pensar Em termos antroposóficos: o eu “vive” agora na alma do intelecto.

Os celtas e germanos, contemporâneos da civilização greco-romana, não eram, nesse sentido, intelectuais. Apresentavam um outro aspecto, desconhecido até então: a sua mentalidade e suas manifestações eram imbuídas de uma vida emocional harmoniosa, decorrente de um mundo anímico interior rico e equilibrado. Esse aspecto também é uma característica dessa segunda parcela de alma, fazendo jus à sua denominação de “alma do intelecto” ou “alma do sentimento”.

A presença dessa alma do intelecto ou alma do sentimento manifesta-se quase que abruptamente em todas as civilizações da época. Não somente na Grécia e em Roma, mas no mundo inteiro, vemos aparecerem pela primeira vez as religiões sistemáticas, a filosofia, a ciência racional etc. Basta lembrarmos Confúcio e Lao-tsé na China, Buda e os Vedanta, na Índia, os grandes profetas do Judaísmo, o Zaratustra histórico na Pérsia, todos contemporâneos dos primeiros pensadores gregos e da eclosão da civilização helênica.

Jubilante, o ser humano conquista o mundo, pelo pensamento, pela ciência, pela organização, pelas artes. Pela primeira vez temos cosmovisões homogêneas e racionais. Platão e Aristóteles criaram a base do raciocínio, das formas políticas, dos métodos científicos e do direito. Seria bom meditar sobre o quanto a nossa vida material e mental repousa em conquistas dos gregos e romanos.

Vemos, pois, o ser humano da Antiguidade lançar-se à conquista deste mundo, deixando atrás de si o conhecimento dos mundos superiores. Os laços com o supra-sensível tornam-se cada vez mais fracos. Podemos até dizer que filosofia e ciência nasceram justamente porque não havia mais suficiente conhecimento da realidade espiritual para que os fenômenos terrenos fizessem sentido.

Mas esses laços, embora completamente esquecidos na vida social comum, não deixavam de ser cultivados em centros isolados, onde alguns homens preparados continuavam mantendo a velha tradição esotérica: eram os chamados “Mistérios”, onde os adeptos tinham que passar por uma iniciação que lhes restituísse a comunhão com os mundos superiores. Encontramos em todas as partes do mundo vestígios desses lugares, onde a tradição esotérica era mantida em segredo, longe da sabedoria comum.

Toda essa evolução impetuosa da humanidade era o fruto do impulso provocado pelas forças luciféricas e arimânicas. Foi simbolizado mais tarde pela expressão “expulsão do Paraíso”. As influências combinadas dessas entidades e das hierarquias superiores “normais” deram origem à eclosão do homem na plenitude da sua genialidade e à riqueza da sua vida espiritual.

Mas se, nessa altura, a imagem do homem civilizado era ainda brilhante e admirável, o seu lado espiritual estava cheio de presságios sombrios! Com efeito, o ímpeto triunfal das forças luciféricas e arimânicas era tal que, em pouco tempo, a sua atuação teria tido consequências funestas para a vida dos mundos espirituais. Estes se teriam retirado do homem, abandonando-o ao triunfo das forças que iriam dominá-lo definitivamente, empurrando-o num caminho errado, onde o seu eu se tornaria uma caricatura daquilo que deveria ser.

Essa evolução, esse perigo tremendo, eram previstos pelos iniciados, Em Osiris, assassinado por Seth, em Dionísio, despedaçado pelas Mênadas, no “Crepúsculo dos Deuses” dos germanos, na luta entre Ormuzd e Árimã e no Hades lúgubre de Homero, mundo “espiritual” reservado aos mortos, temos imagens desse receio.

Abandonado às influências de Lúcifer e Árimã, o homem não tinha forças suficientes para resistir-lhes. Por isso os mundos espirituais resolveram proporcionar-lhe a ajuda por meio de um ato cósmico de suprema importância. Sem influir de maneira alguma em sua liberdade e em seu livre arbítrio, esse acontecimento marcante deveria trazer ao seu alcance uma possibilidade de salvação. Um impulso novo deveria permitir-lhe encontrar uma fonte regeneradora das forças cósmicas puras. Estamo-nos referindo ao Mistério do Gógota, à morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

Um ente cósmico estava desde o início designado para compartilhar da formação e da evolução do homem. Atuava na “criação” do nosso mundo. Agia na formação do eu, atuando, por assim dizer, por trás e por meio dos Exusiai, que tinham dado ao ser humano o primeiro germe dessa “substância” espiritual do seu eu. Esse ente deixava o homem entregue às influências de Lúcifer e Árimã, a fim de que estes contribuíssem para amadurecê-lo. Mas no momento histórico aludido, diante do perigo de ver frustrada a sua obra, esse ente tinha que intervir. E tinha que intervir na esfera que era o habitat do ser humano, isto é, o mundo físico.

Esse ente – podemos chamá-lo de Eu Cósmico; os gregos chamaram-no de Logos – era, no período proto-persa, o Grande Espírito Solar que apareceu como Ormuzd; ele se escondeu atrás das divindades solares das várias religiões pré-cristãs (Osíris, Baldur, etc.). Os grandes iniciados sabiam do seu caminho descendente das esferas celestes em direção à Terra.

Foi ele que se manifestou a Moisés nos elementos quando, aparecendo no meio da sarça ardente, “Deus” e Moisés tiveram um diálogo de significado cósmico (Exodus, 3:13-14): “Disse Moisés a Deus [Elohim, no original]: ‘Eis que quando eu vier aos Filhos de Israel e lhes disser: O Deus [Elohim, no original] de vossos pais enviou-me a vós, e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes hei eu de responder?’ Disse Deus [Elohim] a Moisés: ‘EU SOU O QUE SOU’ e acrescentou: ‘Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU enviou-me a vós’.”

Quem assim falou foi o Eu Cósmico!

Finalmente, esse ente supremo devia levar o seu ser até à matéria terrena, encarnando-se num ser humano. Isso aconteceu quando, no momento do batismo no Jordão, o ser divino (Cristo) entrou num homem (Jesus de Nazaré), permanecendo nele até a morte na cruz.

Não vamos tentar analisar aqui o sentido desse mistério. Basta dizer que a ressurreição significa que a queda do homem no Paraíso, a derrota ante as forças negativas foi superada por esse ato de sacrifício, que a pureza do corpo paradisíaco foi restabelecida no corpo da ressurreição e que a imolação do Ser Crístico significa a entrada, no próprio corpo da Terra, do impulso desse ser. Doravante, pode o homem haurir desse impulso, e procurar realizá-lo através da moralidade dos seus atos. Cristo, que passou a ser o espírito da Terra, depois de ter sido o Espírito Solar, oferece-lhe a possibilidade da sua própria ressurreição, desde que o homem queira aproveitar-se dessa graça.

O ser humano pode, pois, sair da situação atual. Para isso, não deve repudiar Lúcifer e Árimã. Com efeito, estes lhe deram impulsos que nunca deveria renegar. Mas em vez de ser dominado por eles, deve mantê-los em equilíbrio, deixando-se inspirar por eles, mas sempre de acordo com a sua própria decisão.

Torna-se mister manter em equilíbrio os impulsos de Lúcifer e Árimã neutralizando-lhes o ímpeto excessivo. Essa tarefa não cessou com o aparecimento do Cristo na Terra. Ao contrário, os esforços de Lúcifer e Árimã são redobrados na época atual, e nunca antes a humanidade estava de tal maneira ameaçada por um fracasso em sua missão cósmica. Toda a crise da nossa época pode ser interpretada a partir dessa premissa. Compreenderemos então não só o drama cósmico que se desenrola ante os nossos olhos, mas também o papel fundamental que cabe a cada um de nós para levá-lo a um desfecho favorável.

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