O terceiro setênio da biografia humana – A base espiritual

O terceiro setênio da biografia humana – A base espiritual

Josef David Yaari – Criador da Pedagogia Clínica Biográfica

3º setênio

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“O principal ofício do adolescente é deixar de ser um deles.”

Cole and Hall – The Psychology of Adolescence

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Com a base anímica estabelecida, o adolescente vive as polaridades da vida emocional recém adquirida, com um sentimento básico de impermanência, onde nada é fixo, com a sensação de “sem destino”. A sexualidade biológica tem que conviver com o erotismo, com a solicitação psicológica e mesmo social da necessidade de completude!

A palavra sexo é originária da palavra seccionar. No final da sétima semana na formação do embrião, é estabelecida, em função da base genética, a organização genital feminina ou masculina e, no mesmo momento, também ocorre a divisão do cérebro em hemisfério esquerdo e hemisfério direito.

Esta determinação física tem enormes consequências no comportamento e, então, a partir da puberdade, a alma está sedenta de experiência, fascinada com o brilho do mundo, buscando um molde para plasmar e fazer viver a própria personalidade. O erotismo que já vem sendo educado desde a infância, no sentido de atração natural entre o masculino (animus) e o feminino (anima) ganha, na puberdade, o aporte da sexualidade. Ocorre, assim, uma maturação física do organismo que, em nossa cultura, não tem o devido preparo, causando enormes conflitos aos jovens. Aqui é importante lembrar o enorme dano causado pela mórbida repressão que teve início no final da Idade Média, com o emergente moralismo hipócrita, que não é novidade nenhuma hoje. Enquanto a Igreja instituída, apontava o “diabo” nos costumes bárbaros, era visível a atuação deste “diabo” exatamente no âmago do clero. O livro e o posterior filme com o título de “As Brumas de Avalon” é mais uma das muitas denúncias dessa história.

Em todos os grupos sociais, havia um preparo normal para a puberdade que, embora nunca tivesse a meta de evitar o já citado sentimento de impermanência do adolescente, dava-lhe os instrumentos para encontrar o vínculo entre o erotismo natural e a sexualidade biológica. Uma das formas de preparo era o chamado amor galante ou romântico, onde o elemento lúdico tem o papel fundamental. Entendido assim, como preparo, esse ritual está colocado no lugar devido da história ocidental. O objetivo era o brincar, o jogo de amor, Quando esse “jogo artístico” foi colocado como meta de vida, causou os grandes problemas estudados por Robert A. Johnson em seus livros “He”,”She” e “We”. Lievegoed em seu livro ‘Fases da Vida” diz:

“(…) Os menestréis cantavam a pura atração romântica entre homem e mulher, O amor era a reverência de um homem pelo ideal feminino e de uma mulher pelo ideal masculino. Quando o cavaleiro, na batalha ou num torneio, lutava pelo nome de sua “lady” não havia o menor toque de sexualidade na relação entre eles. O amor era praticado como arte, assim como a música é uma arte; o elemento lúdico era importantíssimo, e o amor como qualquer jogo, era jogado de acordo com regras predeterminadas.”

O final desse preparo coincidia com uma cerimônia, uma sagração dos jovens, que agora, através desse ritual, estavam oficialmente acolhidos em suas comunidades, aceitos como co-partícipes e co-responsáveis pelo destino das mesmas. Assim, ainda ocorre nos rituais religiosos, como a ‘confirmação” ou o “Bar-mitsvá”.

O jovem desperta efetivamente para o tu, porque agora, conscientemente se percebe como um Eu. Ocorre o sentimento genuíno de que como Künkel diz “o destino vem de dentro”. É a época de assumir o seu Eu, realizá-lo, “encarná-lo” inteiramente para poder dizer: “Eu sou um Eu que sabe o que quer”. Embora essa afirmação só poderá ser feitas mesmo, muito mais tarde, se é que alguns o conseguem, de fato é na adolescência que está o começo dessa experiência. Por isso há essa necessidade de experimentar os limites máximos, os “picos” da velocidade, da coragem, da sedução, de toda sorte de “loucuras” para descobrir o seu ser no seu espaço, em seu “circulo mágico”.

Estamos no tempo em que a hipocrisia burguesa, há muito, já foi novamente quebrada, mas como fala Michel Lahud, em sua palestra “Pasolini — Paixão e Ideologia”, a pseudotolerância

“acabou por transformar o sexo, de prazer contra as
obrigações sociais, em pura satisfação de uma obrigação social. Noutros termos, a liberdade sexual uma vez concedida, os jovens de todos estratos logo a transformaram na mais terríveI das obrigações: a obrigação de utilizar a liberdade concedida para não passarem por “diferentes “.

Na busca de encontrar a “verdadeira realidade”, o campo real para a atuação do Eu, o jovem faz de tudo. Esse momento tão especial, hoje dominado pela banalidade cultural, tem exigido mais substância e amplitude, pois é lamentável quando a cultura dos que se autodenominam “práticos” contrapõem a ideia de que essa verdadeira realidade é uma ficção de idealistas. Somos desafiados a ouvir com maior sutileza o forte apelo desses jovens que, na falta dessa substância, preenchem seu mundo interno com jogos da assim chamada “realidade virtual” com uma violência compreensível pelo grito sufocado pelo mórbido consumismo. Por isso querem a dissolução, a morte. E triste ouvir em confidências o quanto esses jovens sofrem nosso vazio cultural. O artista sabe disso e tem que lutar constantemente com essas representações mundanas, hoje “cultura de massa” que é o suporte dessa detestável superficialidade que quer impor o irreal como sendo o real. Citando, mais uma vez, Pasolini, ele fala desse

“verdadeiro genocídio, cometido pela civilização industrial de consumo, que, aniquilando o pluralismo fulgurante dos arcaísmos populares, os substitui por uma cultura monolítica de massa. Ora, a massa, naturalmente, é interclassista. É uma média intensamente indiferente e indiferenciada das exigências dos operários, dos burgueses, dos camponeses, dos subproletários: de modo que, na realidade, não se leva em conta nenhuma das exigências desses vários grupos sociais de cidadãos, mas leva-se em conta uma média irreal.”

Com isso o jovens ficam  abandonados, sobrando a violência ou o culto de qualquer coisa, irracionaI, qualquer coisa que dê, ao menos ilusoriamente a sensação de estar vivo, formando essa geração massacrada, feita de um corpo elaborado por essa amálgama estranha de plástico, acrílico, carne e espírito. Os ossos plasmando-se enrijecidos com a voz metálica que não consegue ressoar. Ao olhar dolorido falta o deslumbre e não ocorrem palavras de solução para a lágrima alheia. O sorriso forçado, o amor e a morte por contrato, transformaram os rituais, tão plenos de imagens, nas monótonas festas inúteis, onde os cabelos gelificados e o mecânico ruído denunciam o endurecimento, a rigidez, e, escondem esse profundo apelo, um grito!

E a dificuldade da autoidentificação se torna dramática nesse momento histórico que revela a necessidade de quebrar os clãs, as sociedades fechadas, as corporações patriarcais ou matriarcais. Está aí a vital demanda da emergência do Eu para que a vida espiritual possa, de fato, encarnar na terra, tornando possível a meta de trazer para a terra o “reino dos Céus”!

No entanto, passamos por essa “viagem” e se abrem os caminhos para o sol! Os jovens experimentam seus limites tão penosamente buscados. E percebem, então, os caminhos e os limites, hoje, ainda bem, em si mesmos. A realidade irrompe de dentro, com a certeza de que é preciso continuar. Passos tímidos escondem a nova exuberância de uma geração disposta a outras soluções. E lá pelos 17 anos, ocorre como que o ponto de passagem, “o ponto de mutação”, o momento de assumir e… o medo. É a confluência entre a juventude recém vivida e as exigências da sociedade. Chega, então, esse sentimento de desajeito e

(…) Tens, à tua frente, portas por onde entrar:
E o imponderável abre-te janelas,
Penetras receoso, banhado em tua pureza
E, ainda assim, te sentes vil,
O gesto restrito
Ameaça desatar-se
Em soluços, em abraço.

Tateias esta amplidão
De cidades banhadas pela garoa.
Assobias uma canção à toa
E te abres num sorriso
Aperto de mão amiga,
Abraço de gesto irmão.

Estes polos infinitos que visitas
Sozinho, imerso só em tua solidão,
Apaixonam-te, resguardam-te,
Inclinam-te para a luz e para a escuridão.

A magia do mundo, porém,
Ainda não se desfez:
Tens palavras impronunciáveis,
Fatos inominados, gestos desfeitos.
Tens, dentro de ti,
Cerrado em migalhas de paina e vento,

Um nadinha de qualquer coisa
Que não sabes bem o que é:
Mas é grande, é enorme,
E o mundo inteiro não abarca
Este sentimento irrespondível
Que cabe em teu peito
e se extravasa…

Uma flor, um inseto
Povoam tuas tardes.
Tens o peito opresso
Por essa necessidade de poesia
E lês o mundo
Nos sinais indecifráveis:
porque o vôo de um pássaro
Indica o futuro inscrito
Em pedras e vento.
Tu te inscreves na estrela da manhã
E o orvalho
Coroa teus cabelos.
(…)

(Trecho de “Nos teus dezessete anos” de Riva Liberman)

E assim a adolescência desliza gradualmente para a maturidade e “o adolescente deixa de ser um deles”, com o grande impulso da máxima expansão. Rudolf Treichler, autor do livro “Biografia e Psique”, diz:

“o barco juízo próprio navega sobre a corrente do desejo, e o jovem à deriva, nele aprende a navegar. Sempre se dirige novamente a baías onde recebe percepções espelhadas do mundo, onde despertam sensações e a corrente de seus desejos pode fluir mais clara e calma. Ao atingir a maioridade ele alcançou o mar aberto, cujas correntes são formadas pelo desejo e cujas vagas são agora formadas pelas sensações. Na luz do seu pensar ele continua procurando por novas margens, novas representações que se condensam em conceitos, ampliando-se em ideias. E quanto mais vivamente fluir o mar de suas sensações, quanto mais clara resplandecer a luz de seu pensar, tanto mais ele poderá alcançar novas praias. Nelas poderá aportar, descer em terra firme, criar coragem e encetar caminho em direção à montanha do seu conhecimento. Mas poderá também terminar como náufrago: se a tempestade o dominar, se ele perder o rumo na escuridão ou se o mar que deveria carregá-lo se tornar raso demais. No seu caminho em direção a estas costas ele poderá afundar, caso seu barco não tenha sido construído de forma suficientemente segura.”

Chegamos então ao final dos primeiros 21 anos os anos do aprender: Temos então a crise da maioridade, o momento de decisão para atuar com eficácia na comunidade. É o início dos 21 anos para lutar. É o tempo, normalmente dedicado ao estabelecimento de uma linha profissional, de uma vida pessoal ou familiar própria e de uma maior consciência do contexto no qual vivemos. Depois, a partir dos 42 anos, vivemos os 21 anos para aprender a sabedoria.

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